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Quietude é acção

5 de Abril, 2020

 

Mesmo quando nada está a acontecer, algo está a acontecer. Este é um facto difícil para o ser humano entender, já que tanto venera o altar da produtividade e tão prontamente confunde a ocupação pela eficácia, e pela propulsão em direção ao progresso. O silêncio é uma forma de discurso, escreveu Susan Sontag, “e um elemento num diálogo.” A quietude é uma forma de acção e um elemento de avanço e de progresso.

Há certos momentos, como quando o inverno passa a primavera, em que a própria natureza nos lembra deste facto elementar e escorregadio: os botões começam a desenhar as esqueléticas silhuetas das árvores, retendo folha e flor até que seja o momento certo, até que seja seguro derramar nova vida no ar frio exterior.

Há também certos momentos na cultura em que devemos lembrar, especialmente, para nos mantermos sãos, este facto elementar escorregadio.

O escritor Tocqueville dizia que:

“Pensamos que eles estão parados, mas na verdade o que se passa é que o seu progresso escapa à nossa observação, pois aqueles que caminham parecem estar parados para aqueles que correm”

Porque essa quietude transformadora é tão imperceptível, observa Tocqueville, e porque aparece após períodos de turbulência, normalmente confundimos a quietude com um ponto final. Quase dois séculos antes do psicólogo Daniel Gilbert concluir que “os seres humanos são trabalhos em andamento que pensam erroneamente que estão acabados”, na sua excelente investigação sobre como as nossas ilusões actuais dificultam a nossa felicidade futura, Tocqueville admoesta contra essa ilusão de finalidade, tão verdadeira na escala dos indivíduos como é na escala de sociedades, nações e civilizações.

Algumas sugestões para cultivar essa quietude essencial:

Procure a companhia de pessoas que admire (contacte com elas tanto quanto puder)´

Adicione experiência e experimentação sobre essa mistura.

Não vire costas a situações difíceis.

Aceite desafios.

Familiarize-se com o que não é familiar – a sua mente, por exemplo. É assim que amplia a sua visão e perspectiva.

Lide com grandes questões. Lide com grandes ideias. Trate o seu cérebro como um músculo.

Não confunda a busca por sabedoria com um scroll de fotografias de praias paradisiacas e de gatinhos fofos.

Olhe honestamente para o que não sabe.

Não alimente inseguranças. Não alimente ilusões de grandezas. Ambos sáo obstáculos à quietude.

Seja confidante. Merece isso.

Slow is smooth. Smooth is fast. Como sugeria Marco Aurélio: “Pergunte a si mesmo a todo o momento: ‘Isto é necessário?’”

 

(English version)

 

Even when nothing is happening, something is happening. This is a difficult fact for the human animal to fathom — especially for us modern sapiens, who so ardently worship at the altar of productivity and so readily mistake busyness for effectiveness, for propulsion toward progress. Silence is a form of speech, Susan Sontag wrote, “and an element in a dialogue.” Stillness is a form of action and an element in advancement, in evolution, in all forward motion.

There are certain moments, as when winter cusps into spring, when nature itself reminds us of this slippery elemental fact: Buds begin to spine the skeletal silhouettes of trees, withholding leaf and blossom until it is right, until it is safe to spill new life into the chilly air;

Because this transformative stillness is so imperceptible, Tocqueville observes, and because it appears after periods of upheaval, we are apt to mistake the stillness for an end point. Nearly two centuries before psychologist Daniel Gilbert quipped that “human beings are works in progress that mistakenly think they’re finished” in his excellent inquiry into how our present illusions hinder our future happiness, Tocqueville admonishes against this illusion of finality, as true on the scale of individuals as it is on the scale of societies, nations, and civilizations

“There are certain epochs in which the changes that take place in the social and political constitution of nations are so slow and imperceptible that [people] imagine they have reached a final state; and the human mind, believing itself to be firmly based upon sure foundations, does not extend its researches beyond a certain horizon.

The great gift of such periods is that they invite us to question our certitudes, our givens, these seemingly sure foundations that have lulled us into complacency — for it is only by being jolted out of our complacencies, cultural or personal, that we ever reach beyond the horizon, toward new territories of truth, beauty, and flourishing.

“We imagine them to be stationary only when their progress escapes our observation, as [people] who are walking seem to be standing still to those who run”.