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Dois equívocos

18 de Maio, 2020

Há dois equívocos (há mais, mas por ora vou focar nestes dois) que, frequentemente, acabam por afastar algumas pessoas do caminho do Yoga. O primeiro é a pressa de achar que o Yoga vai resolver todas as nossas questões existenciais com base na lei do menor esforço. E já que tanto se fala de disciplina a propósito da prática de yoga, o que realmente disciplinamos é o movimento da nossa consciência; treinamo-nos para ficar em vez de fugir do que quer que seja que estamos a experienciar. Quando escolhemos ficar com a nossa prática apesar dos altos e baixos da vida, estamos activamente a escolher focar a nossa consciência naquilo que é imutável em nós. Em cada prática, começamos a identificarmo-nos com esta parte estável em nós. Quando nos sentimos tristes, praticamos. Quando nos sentimos felizes e excitados, praticamos. Quando estamos mergulhados na escuridão de um luto, praticamos. Quando temos um milhão de coisas para fazer, praticamos. Mas não praticamos para nos livrar seja lá do que for. Não praticamos para fugir ou suprimir sentimentos, nem praticamos desde um negacionismo estóico. Quando praticamos em alturas altas e baixas da nossa vida, em momentos felizes ou infelizes, o que estamos realmente a dizer é: “A tristeza está a mover-se em mim, mas a tristeza não é o que sou; a euforia está a mover-se em mim, mas eu não sou euforia; o luto está a mover-se em mim, mas o luto não me define”. Quando praticamos independentemente das circunstâncias, criamos espaço para experienciar na totalidade os sentimentos que temos mas sem permitir que eles nos paralizem ou que cristalizem na nossa identidade.

O segundo equívoco nasce de uma grande confusão acerca do que seja ser-se livre e como o yoga é um meio para essa liberdade. Alguns pressupostos a este respeito: 1) o conhecimento do ‘eu’ está disponível apenas quando procuramos por ele; 2) A liberdade não é possível sem o ser se reconhecer como livre. Mas, acima de tudo, tem de haver a conversão do desejo de ser livre no desejo de conhecer, pois o desejo de ser livre pode levar-nos para longe do Conhecimento.

Niyamas

21 de Abril, 2020

Yamas e niyamas orientam o indivíduo para uma maior clareza na relação com tudo o que é externo e para uma maior profundidade em tudo o que é interno. Esforços nesta direcção são companhias constantes a todos os outros aspectos da prática e estudo do Yoga, sendo o processo sempre gradual.

Śaucan é a purificação. Mas é mais do que higiene do indivíduo e dos espaços onde circula. É uma atenção ao que será mantido e o que é eternamente limpo. É a percepção de que o que está sujeito a decair é o corpo, o externo; o que não decai é o que somos. A limpeza externa inclui os cuidados com o corpo, a alimentação, os hábitos desaconselhados como o uso de drogas, ou de alimentos tóxicos que gerem comportamentos condicionados e contraproducentes com o que se pratica no Yoga. A limpeza interna inclui uma selecção cuidado dos estímulos que damos à nossa mente, à dieta de pensamentos que alimentamos.

Santosha (contentamento) é a capacidade de estarmos confortáveis com o que temos e com o que não temos. A felicidade que vem com a aquisição de objectos ou experiências é invariavelmente temporária. Esta capacidade de cultivar um estado interior de permanente alegria, independentemente das circunstâncias externas é a chave para a felicidade total. É capacidade de saber viver a sua própria vida, fazendo o melhor que pode com o que tem.

Tapas é a remoção de impurezas físicas ou mentais através de hábitos correctos de sono, actividade, nutrição, trabalho e relaxamento. É conseguir apurar um ponto de eficiência e rigor no nosso quotidiano que nos permita superar os obstáculos quando é preciso exercitando a determinação, força de vontade concentrada, austeridade e um esforço sobre si próprio.

Como diz Kṛṣṇa na Bhagavadgītā: “Uma linguagem que não fira, verídica, amigável e benéfica, o estudo regular das escrituras, tal é o tapas da palavra. A serenidade e clareza de espírito, a doçura, o silêncio, o autodomínio, a total purificação do caráter, tal é o tapas consciente.

Svadhyaya é a capacidade de estudo motivada pela necessidade de rever e avaliar o nosso progresso. Quando desenvolvido ao seu nível mais elevado- um processo que se prolonga por toda vida até aos seus últimos momentos de vida – o estudo apropriado aproxima o indivíduo de uma compreensão do que é mais complexo.

Diz a Viṣṇu Purāṇa, VI:6.2:
“Do estudo deve-se passar ao Yoga.
Do Yoga deve-se passar ao estudo.
Pela perfeição no estudo e no Yoga,
a Consciência Suprema se manifesta.
O estudo é um dos olhos com que vemos o Ser.
O Yoga é o outro”.

Isvarapranidhana é uma reverência a uma inteligência superior ou a aceitação das nossas limitações perante essa inteligência e ordem superior. É nessa reverência que ganhamos confiança para direccionar as nossas mentes para essa inteligência superior em todas as nossas acções e pensamentos. A melhor definição de Īśvara pranidhāṇa está na Bhagavadgītābhavitam bhavati eva: “O que tiver que ser, será”.

 

Everyday Life Yoga Portrait by SARA CORREIA

Caso sejam dos que não vão deixar de utilizar as redes sociais nesta altura, vou deixar aqui algumas sequências acompanhadas de aspectos que me parecem bem mais importantes a ter em conta.

Uma delas é a disciplina do nosso discurso. Isso pode ser feito quando publicamos nas redes sociais, mas também em casa, agora que estamos ‘obrigados’ a estar mais tempo em família e já se sabe que isso, por vezes, traz alguns arrufos e exaltações.

Na Bhagavad Gita, no verso 15 do capítulo XVII, Kṛṣṇa indica quatro princípios a serem observados quanto à palavra: “Discurso que não cause agitação, que seja verdadeiro, agradável e benéfico (…)”.

Desde sempre considerei a disciplina da palavra uma das mais importantes disciplinas que qualquer pessoa deve seguir. E no mundo do yoga, muito preocupado em transmitir visões religiosas ou Verdades e discursos de auto-ajuda, muitas vezes esquece-se desta disciplina que tem o nome de Vak tapas.

E considero-a importante, desde logo, porque faz-nos estar constantemente alerta e presentes em cada momento do nosso dia. A vigiar, como alguém há muitos séculos nos aconselhou.

Então, os 4 princípios a serem observados em vak tapas, quanto ao uso da palavra são:

  1. Anudvegakaram, ahiṁsā ao nível da palavra é o primeiro aspecto; ser atento e cuidadoso na forma de nos expressarmos para que as palavras não magoem ou agridam ninguém. Isso, só por si, exige estar atento para perceber a tendência que haja em nós para a crítica, para a culpabilização e para o falar mal de ou denegrir. Por exemplo, vejo muitos a criticar atitudes de pessoas hoje em dia que não respeitam as directrizes das autoridades, mas lembremos que ninguém estava preparado para o que está a acontecer. O mundo ocidental é um mimado, acha-se, historicamente, superior e que nunca nada lhe vai acontecer. Nem com o holocausto aprendemos, ou aprendemos muito pouco, por isso, não vale a pena criticar ninguém e sim, pensar que cada um faz o melhor que consegue e sabe a cada momento. Não usemos a palavra para disputar, deprimir, envergonhar, criticar, acusar, ferir ou maldizer.
  2. Satyam, ser verdadeiro. Lembremos que o início de todas as hecatombes no Planeta está, quase sempre, no uso da língua. Ainda que a fala tenha função edificante, normalmente usamo-la para cogitações pequenas e de subterfúgio. As grandes tragédias sociais e individuais nascem da conversação de sentimentos inferiores. Não importa apenas falar, mas verificar o que damos com as nossas palavras. Porque transmitimos estados de alma com as nossas palavras. Se tivermos verdade em nós, o nosso discurso também a terá. Se formos autênticos, as nossas palavras também serão.E se não formos verdadeiros connosco, com os que nos rodeiam e no plano relativo em que nos movemos, também mais dificil será percebermos a Verdade do que somos. Sermos verdadeiros nas palavras que dizemos a nós e aos outros também nos leva a menos agitações na mente.
    3. Priyam, o discurso deve ser agradável. “A Lingua também é um fogo” (Tiago, 3:6). O nosso discurso deve ser agradável e amoroso no tom e na expressão. O diálogo é o que nos expõe o mundo íntimo.
    4. Hitam, bom e benéfico para o ouvinte. Também na palavra não devemos pensar só no que nos serve a nós, e ao que achamos, mas também tentar perceber se o que vamos dizer é benéfico para quem nos ouve.

Do ásana

Tadasana paschima namaskar é um simples, mas avançado estiramento do ombro e tórax praticado a partir de uma posição em pé. O nome vem do sânscrito, tadasana, ou postura da montanha; paschima, que significa “oeste/ocidente”, referindo-se à parte de trás do corpo; e namaskar, que é uma saudação e termo de respeito.

Como o nome sugere, tadasana paschima namaskar é uma variação de tadasana, mas com as palmas das mãos juntas no centro das costas numa uma posição de prece e respeito.

Porque há simbolismos que nos fazem pensar.

Uma sequência de hatha yoga

Desenhos por Carlos Garrido