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Asana, corpo e conexão

1 de Janeiro, 2023

“That which is hard in your body is of the nature of the Earth, and it supports the other organs. Hair, skin, nerve, flesh and bones are the miniature forms of the different aspects of Earth. Sound, touch, form, taste, and smell are the qualities of Earth.”  — M.R. Jambunathan, The Yoga Body (1941)

Conectar-se com o corpo é conectar-se com a Terra, pois o nosso corpo é apenas uma extensão deste planeta. Assim, enquanto caminhamos numa floresta ou praticamos asanas no nosso tapete possam parecer muito diferentes, ambos honram o mesmo espírito universal. Ambas trazem-nos de volta ao contacto com o que é a nossa natureza essencial.

É como John O’Donohue escreveu uma vez: “Os nossos corpos sabem que pertencem; são as nossas mentes que tornam as nossas vidas tão sem-abrigo. Não deixe que a sua mente o leve para longe de casa. Só há uma terra e só tens um corpo. Portanto, agora não é o momento para abandonar a sua prática de āsana, mas pode ser o momento perfeito para reavaliar a sua abordagem.

Porque estas posturas são mais do que simplesmente anatomia, abrangendo mais do que apenas músculos e ossos. Āsana é um canal para a natureza, uma expressão da força criativa que reside dentro de nós e em todo o lado. E a nossa prática, uma manifestação física de uma fonte universal.

“A Terra é a nossa origem e destino. Os ritmos antigos da Terra instigaram-se nos ritmos do coração humano. A terra não está fora de nós; é dentro: a argila de onde a árvore do corpo cresce.”

 

Não é fascinante considerar a natureza paradoxal do asana (postura de yoga) como uma prática de bem-estar espiritual? Através do corpo, no corpo, e usando o corpo, procuramos algo além do corpo.

Recebi recentemente um e-mail de um novo aluno que escreveu:

“Estou ansioso por aulas que me possam lembrar do que se trata isso de praticar yoga…”

Já te envolveste tanto na prática de yoga que perdeste de vista o porquê? Claro que sim. Este ano reflecti muito e, na minha prática pessoal, houve muitos dias em que achei que não era importante estar 2 h a praticar asana e abdicar de 1 dessas 2 horas para estar com um amigo, trabalhar noutras coisas em serviço de outros, estar com os que me são próximos, estar na natureza. Não conheço nenhum sábio que dedicasse 2h do seu dia à prática de asana. E é sabedoria que quero; não dizer que consigo fazer uma postura X ou Y. É preciso ter claro o porquê de se fazer o que quer que seja.

A emoção de fazer algo com o corpo que outras pessoas acham impressionante é sempre de curta duração. Mais: muitas vezes prende-nos na mentalidade habitual durante esse tempo de esforço, de autocrítica, de nunca se sentir bem o suficiente quando se trata de yoga.

É esse o problema com o desempenho em Asana. Embora conseguir posturas complexas possa ser um “sucesso” positivo, gratificante e de confiança, é sempre temporário. O corpo – e, portanto, a nossa capacidade – está sempre a mudar. Além disso, sempre que prendemos a nossa felicidade a algo externo para nós, mesmo que seja um asana, o nosso contentamento fica condicionado a essa circunstância ou experiência.

Comecei a praticar yoga a sério porque queria experimentar um tipo de felicidade que não dependia de nada fora de mim. Como a minha prática tem evoluído ao longo dos anos de ser motivada por postura até ao que é hoje, motivada pelo bem-estar incondicional é o que sempre foi para mim.

Já não pratico asana para conseguir uma postura ou apenas por uma questão de aptidão física. A minha prática postural agora é principalmente sobre cultivar uma sensação encarnada de bem-estar que vai muito além do corpo. Trata-se de restaurar e nutrir a minha ligação com aquele lugar de felicidade independente que vive dentro do corpo e ainda transcende o corpo.

Fazer Yoga ou Ser Yoga?

3 de Junho, 2021

 

 

Yoga é uma vivência que mexe com tudo em nós, nada é deixado para trás. Quando realmente assimilei isto percebi que o yoga poderia ser mais do que uma aula que eu fazia uma ou duas vezes por semana para exercitar o meu corpo e acalmar depois de um dia stressante no trabalho. Devagarinho, fui percebendo que o yoga era uma disciplina holística, um conjunto de práticas que poderiam abordar todo o meu ser e que me dava a possibilidade de crescimento e de uma mudança expansiva e efectiva.

Na altura, eu não sabia o que queria fazer com o meu futuro, mas sabia que procurava (e ainda procuro) algo diferente do estilo de vida corporativo (e mais tarde académico) que muitos dos meus colegas estavam a viver.

Como muitos de nós, fui criada numa cultura onde uma vida significativa era muitas vezes equiparada à realização mundana e à riqueza material. Mas ainda em jovem, longe de saber que havia uma coisa chamada yoga, comecei a questionar essa ideia. Muitas das pessoas que eu conhecia que tinham alcançado o sucesso pareciam longe de estar satisfeitas. Senti que por baixo do seu sucesso externo havia um vazio interno e uma sensação de falta.

Eu tinha lido alguns livros sobre filosofia oriental para saber que essas tradições ensinavam, em primeiro lugar, que a única fonte de contentamento verdadeiro e duradouro está dentro de nós mesmos. Mas foi só quando percebi a extensão do que é essa disciplina prática, filosófica e contemplativa, que entendi que o yoga era um caminho para descobrir a realização que não tinha nada a ver com meu status ou realizações no mundo. Isso impulsionou-me a mergulhar profundamente na prática e ensinamentos da tradição do yoga já lá vão 10 anos. E o que descobri foi como estar comigo mesma e viver no mundo com maior propósito e mais alegria.

Claro, não há absolutamente nada de errado em simplesmente “fazer yoga”. Há enormes benefícios físicos e emocionais a serem obtidos ao aparecer e praticar uma ou duas vezes por semana. Com o tempo, porém, podemos tornarmo-nos mais curiosos sobre como o yoga realmente funciona, por que nos sentimos melhor após a prática e como podemos usar o yoga para nos ajudar a lidar de forma mais eficaz com os desafios nas nossas vidas. Também podemos, como no meu caso, sentir um anseio pela transformação interior e crescimento pessoal que o yoga nos pode oferecer. Acredito que é aqui que entra a filosofia e uma prática reflexiva ou contemplativa — “ser yoga” em vez de apenas “fazer yoga”.

A mudança de “fazer yoga” para “ser yoga” é fundamentada não só no que fazemos. Em última análise, trata-se de fazer um esforço para integrar o que aprendemos na prática no resto de nossas vidas. No meu caso, foi a minha prática de meditação e estudos contemplativos, tanto por minha conta quanto com professores dentro de uma linhagem da tradição oral védica, que expandiram o papel que o yoga desempenhou na minha vida. Com o tempo, com a prática regular de meditação, leitura e reflexão sobre esses ensinamentos, tirando (ou ganhando) tempo para estar em silêncio e na natureza tornou-se parte da minha vida diária, a incerteza que eu sentia sobre o meu futuro foi gradualmente substituída por um senso subjacente de autoaceitação e contentamento. Desde então, passei a confiar nessas práticas para ganhar perspectiva, lembrar a preciosidade da vida e permanecer fiel aos meus valores. Eles deram-me um refúgio em tempos difíceis, expandem a minha capacidade de experimentar alegria, e ajudam-me a processar situações na minha vida através das lentes dos princípios do yoga.

Na sua forma tradicional, o yoga é feito para mudar quem somos como seres humanos, nossa relação com nós mesmos e como aparecemos no mundo. Acredito que, com o tempo, uma prática reflexiva de yoga ajuda-nos a sermos seres humanos mais gentis e benevolentes. Dessa forma, ajuda-nos a experimentar maior felicidade interior e realização, e também contribui para o aperfeiçoamento do nosso mundo.

 

Yoga ajuda-me ainda a cumprir os papéis e responsabilidades da minha vida com maior entusiasmo, clareza e perspectiva. A prática ajuda-me a tomar melhores decisões a ficar centrada quando surgem desafios inesperados e a ser uma presença confiável e solidária para as pessoas na minha vida.

 

No seu prefácio no livro Evolving Your Yoga: Ten Principles for Enlightened Practice, Sophie Trudeau escreveu:

“With body awareness, mental focus, breathing exercises, and some fun (yes, yoga can be laughter-inducing!), yoga is an accessible, adaptable, and transformative practice. It’s possible to live a life with less guilt, less anxiety, and less frustration – leaving space for more self-respect, peace, and self-love.”

Esta tem sido realmente a minha experiência e depois de tantos anos, e com muitas desilusões com o mundo do yoga pelo caminho, ainda me vejo completamente apaixonada e grata pela possibilidade de ter o yoga como uma prática que evolui comigo ao longo da vida ajudando-me a viver e concretizar o meu propósito de vida que, esse sim, vai mais além do yoga. O meio não é o fim.

Antes mesmo de irmos ao tapete, os nossos pensamentos são muitas vezes algo como…
“Tenho que praticar”,
“O meu corpo é tão duro que devo praticar o meu yoga” ou
“Se eu não praticar, nunca melhorarei”
Esse tipo de pensamento soa como um pai a tentar obrigar uma criança a fazer os trabalhos de casa ou  a limpar o seu quarto.
Onde está o benefício, a recompensa e a motivação?
Hoje partilho uma maneira simples e eficaz de nos motivarmos para praticar que vai atender às necessidades profundas e ajudar a vermos o momento da nossa pr]atica com outros olhos.
Primeiro tenho uma confissão para fazer. Eu disse algo nesse sentido para mim mesma muitas vezes. “Eu tenho que praticar” seguido por um som de chicote.
Remova o ‘tem que’ da frase e substitua-o por ‘querer’ e já estará alguns centímetros mais perto de ir ao tapete.

Mas ainda não acabei!

Aqui está a minha estratégia de 2 partes para ajudá-lo a identificar por que quer praticar, entender como a prática pode atender a uma necessidade profunda e instantaneamente sentir-se motivado a praticar.
1. Como se sente depois da prática? Liste como se sente depois de praticar. Acho que pode ter algumas das seguintes palavras na sua lista. Relaxado, energizado, equilibrado, fisicamente forte, mentalmente claro, ágil etc.
2. Cada um dos sentimentos está ligado directamente à necessidade que cada um tem. Deixe-me explicar. Se  se sente relaxado depois do yoga é porque tem a necessidade de relaxar. Se se sente forte no seu corpo, isso é porque tem uma necessidade de conectividade muscular no seu corpo.
Quando nos conectamos ao porquê de praticarmos yoga, o que esperamos ganhar com isso (os benefícios) e como nos sentimos depois de praticar é muito mais fácil estender o tapete e praticar em vez de nos chicotear-mos com ‘temos de’ e ‘devemos’
Disciplina não precisa ser uma palavra dura, encontre a sua disciplina através de um profundo desejo de bem-estar.

7 formas de lidar coma raiva

16 de Agosto, 2020

Paschima namaskarasana.

Há muito com que nos sentirmos zangados hoje em dia. E não só por causa da pandemia que estamos a atravessar. Há esta ideia de que as coisas deviam ser de uma determinada forma e é possível que algumas pessoas se sintam frustradas e com raiva por não terem outras soluções ou simplesmente por não terem uma solução de longo prazo infalível.

Como qualquer emoção, a raiva é normal e saudável. Todas as nossas emoções dizem-nos algo e ensinam-nos muito, ajudando-nos a processar as experiências com o mundo.

Mas é importante saber lidar com a raiva, pois não queremos estar à mercê dessa emoção, sobretudo numa altura em que há muitas descargas emocionais e muitos ‘nervos à flor da pele’.

O que antes se fazia para lidar com as nossas emoções: sair com amigos, viajar, etc. já não é, por agora, possível.

Na verdade, como dizia Śrī Śaṅkarācārya, a raiva nada mais é do que uma expressão da dor e da expectativa.

Deixo aqui algumas sugestões:

  1. Ouve as tuas emoções e pensamentos e, depois, vai mais fundo.

Identifica e reconhece os pensamentos e emoções que te estão a inundar a cabeça. Quando alguém diz: “Não aguento mais”, isso faz escalar uma espiral negativa de emoções. Quando dás por ti a pensar de forma catastrófica, muda o tom do pensamento. Pensa algo como : “eu consigo fazer isto hoje” e repete este ‘mantra’ internamente todos os dias se for preciso. Quando dividimos a nossa raiva ou frustração em pequenas partes, torna-se mais fácil de lidar com ela.

Estamos a viver um momento de soluções de curto-prazo. Depois de teres dado um passo atrás para determinar exactamente o que estás a sentir, vai mais fundo e aprofunda por que te estás a sentir dessa forma. Faz uma pausa e reflecte, sobretudo se acabaste de experienciar um pico de raiva.

Pergunta a ti mesmo(a): “O que aconteceu? O que me efureceu naquele momento?”. Se a resposta não for óbvia, escreve sobre isso num diário. Mais tarde vais poder identificar padrões: é possível que sintas mais raiva nas mesmas alturas do dia, ou quando estás com certas pessoas. Tudo isso é informação que podes usar para processar as tuas emoções e arranjar as soluções à tua medida.

O lado bom da raiva é que nos diz que algo não está bem connosco. E, tudo bem que vivas com expectativas, mas deixa que as expectativas incluam obstáculos também. O que pode dar errado vai dar errado. Inclui essa ideia nas tuas expectativas. Esta é uma afirmação muito sensata e não significa que desejes ou façass as coisas para darem errado. É, de facto, uma afirmação bastante positiva.

  1. Mantém a curiosidade sobre pessoas.

Quando achamos que as pessoas deviam agir assim ou assado, criamos expectativas e estas criam mais tensão e frustração. Lembra-te que nunca sabemos as reais intenções das pessoas, sobretudo através de um ecrã.

Presumimos demasiado acerca das outras pessoas e poucas vezes as ouvimos realmente. Agora, ser curioso acerca das pessoas não é querer (e muito menos consumir) o que muita gente despeja nas redes sociais sobre as suas vidas privadas. A vida pessoal e privada devia manter-se fora das redes e manter-se privada, apesar de todas as alterações que o conceito de privacidade tem vindo a sofrer.

Mantém a porta aberta para conversas reais, com pessoas reais e não com posts. Isto pode neutralizar a tua raiva.

  1. Faz exercício físico. Sim, yoga, mas não só.

Muitas vezes o melhor que há a fazer quando estamos zangados é transpirar muito. Fazer algo fisicamente exigente ajuda-nos a fazer um reset. Não tem de ser exercício físico feito de forma extenuante. Pode bastar uma boa técnica de respiração, como a respiração diafragmática.

E orientação especializada e profissional nesta área é indispensável.

4. Se achares que é mesmo preciso, procura ajuda profissional.

  1. Tem a tua playlist de músicas preferidas sempre à mão.

A música equilibrada é uma das melhores terapias para reequilibrar a tua energia e o campo vibratório da tua casa. Se tiveres uma lista de músicas de que gostas e que sabes que te acalmam, podes usar quando surge aquele pico de raiva.

  1. Usa as tuas reservas de energia emocional

A raiva desgasta-nos e deixa-nos KO. Tens de encontrar um equilíbrio entre usar a raiva para uma mudança em ti sem ficares exausto(a). A raiva aumenta a nossa batida cardíaca e tensão arterial. O truque está em encontrar estratégias que te ajudem a acalmar, como, por exemplo, dar um passeio na rua ou na praia. Neste caso, só queremos limitar os efeitos do pico de raiva. Ou podes canalizar a energia que vem da raiva para te tornares um activista por alguma causa.

  1. Encontra um ombro realmente amigo

Por vezes, só precisamos de ventilar. Telefona a um amigo ou a alguém em quem confies e possas simplesmente desabafar. Alguém que te possa ouvir simplesmente. Este tipo de troca pode não só ajudar-te a processar a emoção que estás a sentir, mas também o facto de verbalizares o que sentes e o porquê, ajuda a ganhar perspectiva sobre os teus próprios sentimentos, a encará-los com mais objectividade e, portanto, com menos dor.

 

Isto não é uma simulação

13 de Agosto, 2020

Muitos de nós podem ser perdoados por terem pensado que essa coisa da vida era muito fácil. As últimas décadas foram boas para nós. Economias em expansão. Variadas e impactantes tecnologias.

Estávamos a viver, como um académico disse após a queda do comunismo, o fim da história. Todos aqueles momentos trágicos e sombrios do passado… pertenciam ao passado.

Não há nada como uma pandemia global – estranhamente semelhante às pragas do mundo antigo – para nos rebentar com essa noção. E como não quando ouvimos que Nova York, a jóia da coroa deste mundo moderno e aconchegante em que vivemos como crianças mimadas, teve que montar necrotérios temporários para lidar com as pilhas crescentes de cadáveres. Nada como ouvir que milhões de pessoas estão no desemprego ou em empregos cada vez mais precários para nos acordar para a realidade: esta pandemia não é uma simulação.

Não. Isto é a vida real. É para isso que temos treinado e deveriamos ter treinado. “Nenhum papel é tão adequado à filosofia como aquele em que você está agora”, disse Marco Aurélio… quando o império de Roma parou e a praga assolou sobre a cidade. “A vida é uma guerra e uma jornada longe de casa”, disse ele, enquanto lutava, por anos a fio, contra invasores nas fronteiras do seu império.

Estamos a viver a história, assim como Marcus e todos os estoicos estavam. Isto não é uma simulação. É hora de trabalhar. É hora de incorporar a filosofia e o yoga de que falamos. É hora de reunir essas virtudes críticas de Coragem, Temperança, Justiça e Sabedoria. O nosso modus operandi tem de mudar. Não podemos simplesmente adaptar e fazer tudo como antes, apenas de forma diferente. Temos realmente de mudar a nossa bússula. E Querer mais: não mais do mesmo, mas mais da Liberdade do Ser e não da do Ter.

Isso não será fácil, mas é o que está na nossa frente.

Estás com medo? Tudo bem.  Mas isso é em parte porque estás bem no olho do furacão —estás a olhar para tudo isto demasiado perto, com as contas para pagar, com os filhos a precisar, com os empregos a deixarem de o ser. Se pudermos diminuir o zoom, só um pouco, teremos alguma perspectiva. Somos lembrados de que isto também passará, que sobreviveremos.

Hemingway abre O Sol Também se levanta – ambientado após uma guerra terrível, que foi seguida por uma terrível pandemia, com todos os tipos de tragédias individuais comuns pelo meio – com um dos versos mais bonitos da Bíblia, um que soa como se pudesse ter sido escrito por Marco Aurélio:

“Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu…”

Todos os dias desde que esta crise começou, o sol nasceu e pôs-se. A lua saiu e brilhou. A relva cresceu. Bebés nasceram. Pessoas tiveram ideias. Pessoas apaixonaram-se. Isso é tão verdadeiro agora como foi durante a Peste que Marco Aurélio suportou por 15 anos, foi verdade depois, e será verdade sempre.

Temos que encontrar uma maneira de ter algum consolo nisso, para continuarmos em nós mesmos. Vamos superar isto, como sempre passamos por tempos difíceis. Haverá um novo normal. Vamos adaptar e ajustar.

A vida permanecerá para sempre, então não há razão para ficar com raiva ou com medo ou com amarguras. Apenas aguenta aí. Faz o melhor que puderes nos lugares certos com as pessoas certas. Não sejas como foste antes da pandemia, sê melhor.

P. S.:

Não tens de passar por tudo sozinho. A jornada de yoga de um praticante pode ser muito solitária, porvezes; sim temos que nos esforçar no auto-estudo (svadhyaya), mas em nenhum lugar diz que temos que fazer isso isoladamente. E acho que já temos confinamentos que cheguem nas nossas vidas por estes dias.

Um shala é um lugar de saúde física, mental e espiritual. E saber isso, ter isso como missão manteve-me firme nos meses em que tivemos de encerrar. Porque eu teria de prestar contas no momento em que decidisse reabrir. Prestar contas a quem? A quem viesse praticar no shala. Internamente, eu tinha uma responsabilidade para com os praticantes e não ia desapontá-los. A única forma de o fazer era manter-me à tona – praticando. Isso manteve-me responsável, e ainda mais empenhada na prática e nos compromissos que assumi quando o abri. Yoga é estar presente. Inteiramente. Sem adaptações, sem simulações. Yoga é presença integral.

 

(ENGLISH)

Many of us can be forgiven for having thought that this life thing was pretty easy. The last few decades have been pretty good to us. Booming economies. Great technology. Our wars have had limited impact on our populace and our recessions have been short.

We were living, as one academic said after the fall of communism, after the end of history. All those tragic, bleak moments of the past…were past us.

There’s nothing like a global pandemic—one eerily similar to the plagues of the ancient world—to disabuse us of that notion. Nothing brings that home quite like hearing that New York City, the crown jewel of this cushy, modern world, had to set up temporary morgues to handle the growing piles of bodies. Nothing like hearing that millions of people are out of work to make it clear that this is not a drill.

No. This is real life. This is what we have been—and should have been—training for. “No role is so well-suited to philosophy as the one you happen to be in right now,” Marcus Aurelius said…as Rome’s empire ground to a halt and the plague descended upon the city. “Life is warfare and a journey far from home,” he said, as he battled invaders at the frontier for years on end.

We are living through history, just as Marcus was and all the Stoics were. This is not a drill. It’s time to put on our big girl pants and get serious. Get to work. It’s time to embody the philosophy we have talked about. It’s time to muster those critical virtues of Courage, Temperance, Justice, and Wisdom.

This won’t be easy, but it’s what’s in front of us.

NOTE:

You don’t have to go through it all by yourself. A practitioner’s yoga journey can be very lonely at times; yes we have to strive in self-study (svadhyaya), but nowhere says we have to do this in isolation. And I think we’ve got enough lockdowns in our lives these days.

A shala is a place of physical, mental and spiritual health. And knowing that, having that as a mission kept me going in the months we had to shut down. Because I’d have to be held accountable the moment I decided to reopen. Accountable to whom? To those who came to practice in the shala. Internally, I had a responsibility to the practitioners and was not going to disappoint them. The only way to do that was to stay afloat by practicing. This kept me responsible, and even more committed to the practice and commitments I made when I opened it. Yoga is being there. Entirely. No adaptations, no simulations. Yoga is integral presence.

“Provai-vos a vós mesmos”

10 de Agosto, 2020

“Vá anda, tens aqui um cãozinho para te animar”. Eu acelerei o passo e no fim da subida lá estava o farrusco que se deita de barriga para cima assim que me aproximo dele para lhe dar festas. O amigo que me  acompanhava sabia (por já me conhecer há muitos anos), que se há coisa que me poderia fazer esquecer o cansaço nas pernas, o calor e a fome, é um cão. Até porque o fim do trilho ainda estava, nesse momento da caminhada, longe, ao contrário das previsões do google maps que nos haviam dado falsas expectativas.

A ideia era fazer um trilho tranquilo, apenas 15km sem grandes subidas, segundo nos haviam dito. Por isso, demo-nos ao luxo de aproveitar (e desperdiçar muito tempo na primeira metade do trilho) parando algumas vezes, tirando fotos, mergulhando nas cascatas geladas que íamos encontrando e, no meu caso, abraçando imensas árvores pelas quais me apaixonei pelo caminho. E eu, apesar de já não o ser, cometi o erro de principiante: subestimei o caminho e achei que conseguiria fazer o trilho em poucas horas e que não valeria a pena levar comida.

Mas a meio do caminho, quando saímos da zona dos rios, esperava-nos um deserto sempre a subir, abrindo uma segunda etapa do bem diferente da primeira, só com subidas longas, intercaladas de algumas descidas de fazer chorar os joelhos. Depois dessa primeira subida interminável e em terreno árido, a fome veio em força e as pernas começaram a queixar-se. E ainda faltavam mais 3 horas de caminhada.

O meu amigo ainda tentou oferecer-me a comida dele, mas ele não é vegetariano. “Ah, comes a minha sandes. Eu tiro o fiambre e o queijo”. “-Não, guarda a sandes, se não a comes, encontramos sempre pelo caminho um cão que a coma”.

Nessa parte final, a sentir-me literalmente a usar as reservas de energia de backup, comecei a pensar no erro que tinhamos cometido ao ter perdido tanto tempo no início do caminho. Deu para desfrutar da parte mais bonita do trilho, mas fez com que o final acabasse por ser mais duro do que tinhamos previsto.

Quantas vezes isto não acontece na vida e na prática de yoga?

Vejo isso a acontecer muito naquelas pessoas que ‘vão para o yoga’ porque querem relaxar, e pelas mil e uma maravilhas que, hoje em dia, se prometem a propósito da prática de yoga. Querem os benefícios rapidamente, mas quando se apercebem de que afinal o processo implica muito mais do que uma musica relaxante, palavras bonitas e roupa fitness xpto, recuam. Quando percebem que, afinal, o verdadeiro processo de yoga é uma transformação completa daquele que não se limita a ficar pela rama das posturas e que o que está em causa na prática de yoga é a disciplina dos sentidos, um movimento de consciência, de treino de nós mesmos e não apenas do corpo no sentido de permanecermos com a experiência em vez de fugirmos dela. Porque quando escolhemos mantermo-nos na prática apesar dos altos e baixos de energia e nas nossas vidas, estamos activamente a escolher focar a nossa atenção e consciência naquela parte de nós que não muda. Como diz Donna Fahri, quando nos sentimos tristes, praticamos, quando estamos felizes, praticamos, quando estamos cansados praticamos, quando estamos enrolados nas teias do luto, praticamos; não praticamos para nos livrarmos de sentimentos ou para suprimi-los. Praticamos para que tudo possa fluir em nós.

Tal como no trilho de ontem, quando a mente cedia ao cansaço das pernas e à fome, o corpo acelerava o passo e tentava correr para terminar aqueles quilómetros mais depressa, mas a prática de yoga surgia e eu abrandava o passo, voltando ao ritmo certo sem querer abreviar ou fugir daquela lição que aquele terreno árido me estava a dar.  “Examinai-vos a vós mesmos; se permaneceis na fé, provai-vos a vós mesmos”, nas palavras de Paulo de Tarso.

O domínio de um ásana (postura de yoga) é a completude de tarefa atrás de tarefa, depois vem a permanência, a superação do desafio, e a observação alinhada da mente e corpo. Assim, também no hiking ou caminhada em trilhos.

Iyengar dizia que independentemente do motivo por que se começa a praticar yoga, mesmo nos ásanas mais simples experimentamos 3 níveis de busca ou inquirição: “a inquirição externa que traz firmeza ao corpo, a inquirição interna que traz consistência e quietude à inteligência, e a inquirição íntima que traz benevolência ao espírito”.

Se cultivarmos bem estas etapas, aprendemos a nunca subestimar nenhum início de caminho na nossa vida e não cairmos na ilusão da expectativa de um fim rápido e indolor. Num trilho ou no tapete, a pratica é de pequenas acções e movimentos, negociações com o nosso «eu» e com o corpo, contestações dentro de nós (corpo-mente-prática); são um processo dialéctico que levam a uma fusão com a condição primária da nossa existência.

 

 

Perseverança e fadiga

4 de Agosto, 2020

 

Desde o início do confinamento, recebi muitas mensagens de pessoas com dificuldade em acompanhar tudo o que se está a passar e em manter o controlo das suas ansiedades.  Para alguns, parece que é simplesmente demasiado para se lidar. Mas, é claro, “a imensidão de tudo o que se passou” é demais para qualquer um, especialmente por si mesmo.  Por isso, não precisas sentir nenhum stress adicional ou culpa por te sentires sobrecarregado, mesmo quando possas estar a entrar em férias. A julgar por algumas das mensagens, parece-me que a fadiga da vigilância está a tornar-se um problema real, acrescentada da fadiga digital.  Ou seja, talvez sintas que as coisas têm sido stressantes e desafiadoras por tanto tempo que já não podes mais manter a tua vigilância sobre distanciamento social, lavagem das mãos, uso de máscaras etc?  Afinal, só temos quantidades finitas de energia nas nossas reservas.  Ou talvez sintas que, porque nem tu nem ninguém no teu círculo imediato foi afectado pelo vírus durante todo esse tempo, toda a confusão parece exagerada?  Ou seja, a tua resposta pessoal de fuga ou luta está a enfraquecer, e com ela murcham a tua energia e senso de urgência.

Seja qual for o teu caso, pode ser reconfortante saber que é completamente natural ficar cansado.  Não há necessidade de colocar camadas extra de sofrimento, julgando-se por estar cansado.  Isso não mostra que és fraco; isso mostra que és humano.  Lembra-te: a prática da atenção plena não deve erradicar toda a nossa dor, mas sim libertar-nos do sofrimento que infligimos a nós mesmos e aos outros como resposta a essa dor inevitável.   Uma vez que podemos aceitar isso, a próxima pergunta torna-se muito mais útil e saudável: o que posso fazer para me sustentar (e aqueles ao meu redor), dado o quão cansado eu inevitavelmente me tornei?

Em tempos de dificuldade e fadiga, pode-se recorrer ao poderoso conceito de viriya (perseverança).  Como uma das chamadas “seis perfeições”, viriya é um conceito rico.  Chama a nossa atenção para a energia, determinação e diligência envolvidas no cultivo do bem-estar.  Ou seja, lembra-nos que o engajamento em actividades saudáveis requer esforço (ou seja, é trabalho), mas que esse esforço é revigorante porque é autêntico e fiel à nossa natureza.  Dessa forma, viriya ajuda-nos a entender a diferença entre preguiça e descanso, entre dormitar e meditar, entre desistir e se reagrupar. Então, o que isso significa para nós nestes tempos desafiadores e exaustivos? Bem, primeiro, significa que podemos e devemos ser gentis connosco mesmos quando nos sentimos cansados e exaustos, quando sentimos vontade de desistir.  É completamente compreensível e natural que possamos sentir-nos assim. Em segundo lugar, significa que devemos fazer uso dessa valiosa visão sobre o nosso estado de esgotamento como uma oportunidade para reflectir sobre o que podemos fazer para cuidar de nós mesmos (e dos outros), dado que as nossas energias e estão em baixa. Terceiro, significa que devemos proteger-nos contra cair nos braços da preguiça e desleixo (tanto físicos como mentais), que são falsos amigos de compaixão.  Nota que dando tão pouco, recebemos pouco em troca.  Podemos querer acreditar que cair no sofá à frente da TV com uma cerveja far-nosá sentir mais capazes de enfrentar o mundo, mas não, pelo menos não por muito tempo. Em quarto lugar, isso não significa que não devemos relaxar – é claro que devemos!  No entanto, pode significar que as actividades de preguiça e desleixo (às vezes partes muito bem-vindas do nosso dia) não devem tornar-se um padrão ou rotina, apesar de quão tentadoras elas podem ser durante os momentos de fadiga.  É improvável que sejam a resposta certa para a pergunta: o que posso fazer para me sustentar (e aqueles ao meu redor), dado o quão cansado eu inevitavelmente me tornei?  Em vez disso, a resposta certa provavelmente envolverá algum esforço, mas deve ser um esforço que é adequadamente direccionado para o teu bem-estar.  Considera a hipótese de teres mais energia do que pensas, mas que ela simplesmente está obscurecida pelas complexidades emocionais e preocupações dos nossos tempos desafiadores. Assim, a tua resposta à pergunta (o que posso fazer para sustentar a mim e aos outros?) pode ser mais esforçada.  Por exemplo, podes ter desistido da tua meditação regular de 20 minutos sentado todas as noites depois de algumas semanas em troca de uma taça extra de vinho?  Ou talvez as tuas tentativas de fazer uso da caminhada até ao metro para um exercício de atenção plena foram substituídas usando essa caminhada para verificar o teu telefone e ensaiar queixas sobre colegas e amigos dentro da tua cabeça?

Um ponto-chave sobre perseverança (viriya) é que ela não existe para nos esgotar e nos levar além dos nossos limites. Isto não é uma negação trágica e heróica de ti mesmo. Não é um convite para te julgares duramente. Em vez disso, viriya convida-nos a reflectir honestamente sobre as nossas capacidades a cada momento, e fazer o que pudermos nesses momentos para a nossa saúde e  bem-estar. Isso significa que precisamos reconhecer quando cair no sofá é bom para nós e quando é simplesmente preguiça rotineira obscurecendo o que poderíamos fazer melhor por nós mesmos (dado os níveis de energia que temos). Esse tipo de honestidade connosco pode ser um desafio em si mesmo, mas aceitá-lo é uma maneira de cuidar de nós mesmos com integridade e sabedoria.

(English)

I have received many messages from people struggling to keep track of things, and then also struggling to keep track of their anxieties and stress about those things.  For some, the immensity of everything feels like it is too much to cope with.

But, of course, ‘the immensity of everything’ IS too much for anyone to cope with, especially on their own.  You need feel no additional stress or guilt about feeling overwhelmed.

Judging by some of your messages, it seems to me that vigilance fatigue is becoming a real issue.  That is, perhaps you feel that things have been stressful and challenging for so long that you can no longer maintain your vigilance about social distancing, hand washing, mask wearing etc?  After all, we only having finite amounts of energy in our reserves.  Or perhaps you feel that, because neither you nor anyone in your immediate circle has been afflicted by the virus itself during this whole time, all of the fuss seems exaggerated or overblown?  That is, your personal fight-flight response is shutting down, and with it withers your energy and sense of urgency.

Whatever the case for you, it may be reassuring to know that it is completely natural to get tired.  As we’ve seen so many times in our course, there is no need to layer on extra suffering by judging yourself for being tired.  It doesn’t show that you’re weak; it shows that you’re human.  Remember, the practice of mindfulness is not supposed to eradicate all our pain, but rather to free us from the suffering that we inflict on ourselves and others in response to that unavoidable pain.   Once we can accept that, the next question becomes much more helpful and healthy: what can I do to support myself (and those around me), given how tired I have inevitably become?

At times of difficulty and fatigue, one might turn to the powerful concept of viriya (perseverance).  So, I’d like to spend a moment on it today, if you’ll indulge me.

As one of the so-called ‘six perfections,’ viriya is a rich concept.  It calls our attention to the energy, resolve, and diligence involved in the cultivation of well-being.  That is, it reminds us that engaging in wholesome, healthy activities takes effort (ie. it’s work), but that such effort is itself invigorating because it is authentic and true to our natures.  In this way, viriya helps us to understand the difference between laziness and rest, between dozing and meditating, between giving up and regrouping.

So, what does this mean for us in these challenging and exhausting times?

Well, first, I think it means that we can and should be gentle with ourselves when we feel tired and exhausted, when we feel like giving up.  It’s completely understandable and natural that we might feel that way at the moment.

Second, it means that we should make use of this valuable insight into our depleted state of being as an occasion to reflect on what we can do to look after ourselves (and others), given that our energies and spirits are low.

Third, it means that we should guard against lapsing into the arms of the tempting but false friends of compassion (sloth and laziness), which entice us into their embrace by allowing us a period of effortlessness.  However, by giving so little, we get little in return.  We might want to believe that slumping onto the couch in front of the TV with a beer will make us feel better able to face the world, but the chances are it will not, at least not for long.  We might want to believe that not bothering to find our face mask before leaving the house will feel liberating and light, but the chances are it will not.

Fourth, this does not mean that we should not relax – of course we should!  However, it might mean that the activities of sloth and laziness (sometimes very welcome parts of our day) should not become our default or routine, despite how tempting they might be during times of fatigue.  They are unlikely to be the right answer to the question: what can I do to support myself (and those around me), given how tired I have inevitably become? Instead, the right answer is likely to involve some effort, but it should be effort that is properly directed towards your well-being.  If you know your energy levels are low, this might mean some very small things.

Of course, if your insight into yourself reveals that you have more energy resources than you thought, but that they have simply been obscured by the emotional complexities and concerns of our challenging times, you might also consider whether your answer to the question (what can I do to support myself and others?) can be more effortful.  For instance, you might have given up your regular 30 minute sitting meditation each evening after a few weeks in exchange for an extra glass of wine?  Or perhaps your attempts to make use of the walk to the bus-stop for a mindfulness exercise have been replaced using that walk to check your phone and rehearse your grievances about your colleagues in your head?  If you have the energy, how would it be if you reverted to a 30 minute sit or a mindful walk?

A key point here with viriya is that it doesn’t call on us to deplete ourselves by pushing ourselves beyond our limits.  This is not a tragic-heroic denial of self.  It is not an invitation to judge ourselves harshly.  Rather, viriya calls on us to reflect honestly on our capacities and abilities at any given moment, and to do what we can in those moments to spend them in support of wholesomeness and well-being.  This means that we need to recognise when flopping onto the couch is good for us and when it’s simply routined laziness obscuring what we might better do for ourselves (given the energy levels we have).  This kind of honesty with ourselves can be challenging in itself, but accepting it is a way to look after ourselves with integrity and wisdom.

 

 

Medo e invertidas

24 de Julho, 2020

 

Compreensão e repetição são as soluções definitivas para qualquer medo

 

“Filipa. Sirsasana no meio da sala”. Até hoje recordo o terror com que ouvi esta frase da minha professora de Iyengar yoga, 1 ano depois de andar a tentar subir as pernas para a parede e a fazer a postura apenas com esse suporte.

Já não me lembro se caí ou não dessa primeira vez em que me afastei da parede. Mas lembro-me de duas coisas muito claramente: 1) as reações mentais nos segundos em que caminhei da parede para o meio da sala (e já lá vão 10 anos); 2) de que todo esse processo foi preciso para que hoje eu consiga subir, estar e ensinar essa postura com toda a segurança e compreensão sobre a interacção mente-corpo, mente-ásana.

O medo é um produto da mente que é manifesto e revelado no ásana. Em muitas posturas, mas no sirsasana e em invertidas sobre a cabeça em particular. É uma postura que toca em muitas barreiras em nós. É o início de uma viagem.

Já escrevi algumas vezes sobre o medo na prática de yoga e na forma como podemos lidar com ele. Uma coisa comum em todos os medos é que ele só surge quando a nossa compreensão da relação que nos suscita medo não é completa. Tenho medo de uma postura de yoga quando ainda não compreendo a minha relação com ela, tenho medo do amor quando ainda não o compreendo, tenho medo de uma relação inesperada quando ainda não a compreendo. Essa relação não é só entre nós e a natureza , entre nós e aquilo que possuímos, entre nós e ideias. Se essa relação não é compreendida inteiramente, há medo. Porque viver é relação.

Ser é estar em relação. Na prática, não fazemos posturas, somos posturas. Fundimo-nos com a postura. O medo só existe em relação a algo, não é uma coisa abstracta.

Como é que nos libertamos do medo?

Como em qualquer relação, aquilo que é conquistado tem de voltar a sê-lo várias vezes. Nenhum problema é vencido de uma só vez; ele pode ser compreendido mas não conquistado. Conquistar só leva a mais resistência, mais confusão, agitação e a mais medo. Resistir, dominar, guerrear com uma postura (no tapete) ou com um problema (na vida) só vai criar mais conflito. Se pudermos explorar o medo, entrar nele passo a passo, explorar o seu conteúdo, então esse medo vai passar de vez.

Na vida, acima de tudo, temos medo de não virmos a ser aquilo que projectámos ou sonhámos. Quando há medo de não virmos a ser, do desconhecido (como uma invertida), da morte, será que podemos vencer esse medo pela determinação? Esta fará parte do processo, sem dúvida. Mas é preciso perceber que a repressão, a sublimação ou substituição só vão gerar mais resistência. O medo não se vence pela resistência ou defesa, nem nos libertamos dele através de uma busca por uma resposta ou explicação verbal.

De que é que temos medo? Temos realmente medo da invertida ou das ideias que associamos a essa postura? Temos medo do facto ou da ideia? Temos medo de uma coisa tal como ela é ou daquilo que pensamos que essa coisa é? O facto é uma coisa, a ideia acerca do facto é outra. Temos de perceber se temos medo da palavra, do facto ou da ideia.

Só temos medo quando não existe comunhão com aquilo que receamos. Se tenho medo da solidão, p.ex., é porque não estive nunca em completa comunhão com essa solidão. No momento em que nos abrimos à compreensão do que é a solidão, então, podemos compreender o que ela é.

É a minha opinião, a minha ideia, a minha experiência, o meu conhecimento acerca do facto que gera o medo. Portanto, é a mente que cria o medo, sendo a mente o processo de pensar. Pensamento é energia e verbalização. Ficamos libertos do medo apenas quando há auto-conhecimento, quando nos libertamos desse processo de atribuição de nomes, de projecção de símbolos, de imagens. O autoconhecimento é o início da sabedoria e de uma vida sem medo.

Veja aqui um tutorial escrito sobre como fazer esta postura (depois de já se ter treinado muito na parede):

Dois equívocos

18 de Maio, 2020

Há dois equívocos (há mais, mas por ora vou focar nestes dois) que, frequentemente, acabam por afastar algumas pessoas do caminho do Yoga. O primeiro é a pressa de achar que o Yoga vai resolver todas as nossas questões existenciais com base na lei do menor esforço. E já que tanto se fala de disciplina a propósito da prática de yoga, o que realmente disciplinamos é o movimento da nossa consciência; treinamo-nos para ficar em vez de fugir do que quer que seja que estamos a experienciar. Quando escolhemos ficar com a nossa prática apesar dos altos e baixos da vida, estamos activamente a escolher focar a nossa consciência naquilo que é imutável em nós. Em cada prática, começamos a identificarmo-nos com esta parte estável em nós. Quando nos sentimos tristes, praticamos. Quando nos sentimos felizes e excitados, praticamos. Quando estamos mergulhados na escuridão de um luto, praticamos. Quando temos um milhão de coisas para fazer, praticamos. Mas não praticamos para nos livrar seja lá do que for. Não praticamos para fugir ou suprimir sentimentos, nem praticamos desde um negacionismo estóico. Quando praticamos em alturas altas e baixas da nossa vida, em momentos felizes ou infelizes, o que estamos realmente a dizer é: “A tristeza está a mover-se em mim, mas a tristeza não é o que sou; a euforia está a mover-se em mim, mas eu não sou euforia; o luto está a mover-se em mim, mas o luto não me define”. Quando praticamos independentemente das circunstâncias, criamos espaço para experienciar na totalidade os sentimentos que temos mas sem permitir que eles nos paralizem ou que cristalizem na nossa identidade.

O segundo equívoco nasce de uma grande confusão acerca do que seja ser-se livre e como o yoga é um meio para essa liberdade. Alguns pressupostos a este respeito: 1) o conhecimento do ‘eu’ está disponível apenas quando procuramos por ele; 2) A liberdade não é possível sem o ser se reconhecer como livre. Mas, acima de tudo, tem de haver a conversão do desejo de ser livre no desejo de conhecer, pois o desejo de ser livre pode levar-nos para longe do Conhecimento.