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Asana, corpo e conexão

1 de Janeiro, 2023

“That which is hard in your body is of the nature of the Earth, and it supports the other organs. Hair, skin, nerve, flesh and bones are the miniature forms of the different aspects of Earth. Sound, touch, form, taste, and smell are the qualities of Earth.”  — M.R. Jambunathan, The Yoga Body (1941)

Conectar-se com o corpo é conectar-se com a Terra, pois o nosso corpo é apenas uma extensão deste planeta. Assim, enquanto caminhamos numa floresta ou praticamos asanas no nosso tapete possam parecer muito diferentes, ambos honram o mesmo espírito universal. Ambas trazem-nos de volta ao contacto com o que é a nossa natureza essencial.

É como John O’Donohue escreveu uma vez: “Os nossos corpos sabem que pertencem; são as nossas mentes que tornam as nossas vidas tão sem-abrigo. Não deixe que a sua mente o leve para longe de casa. Só há uma terra e só tens um corpo. Portanto, agora não é o momento para abandonar a sua prática de āsana, mas pode ser o momento perfeito para reavaliar a sua abordagem.

Porque estas posturas são mais do que simplesmente anatomia, abrangendo mais do que apenas músculos e ossos. Āsana é um canal para a natureza, uma expressão da força criativa que reside dentro de nós e em todo o lado. E a nossa prática, uma manifestação física de uma fonte universal.

“A Terra é a nossa origem e destino. Os ritmos antigos da Terra instigaram-se nos ritmos do coração humano. A terra não está fora de nós; é dentro: a argila de onde a árvore do corpo cresce.”

Isto não é uma simulação

13 de Agosto, 2020

Muitos de nós podem ser perdoados por terem pensado que essa coisa da vida era muito fácil. As últimas décadas foram boas para nós. Economias em expansão. Variadas e impactantes tecnologias.

Estávamos a viver, como um académico disse após a queda do comunismo, o fim da história. Todos aqueles momentos trágicos e sombrios do passado… pertenciam ao passado.

Não há nada como uma pandemia global – estranhamente semelhante às pragas do mundo antigo – para nos rebentar com essa noção. E como não quando ouvimos que Nova York, a jóia da coroa deste mundo moderno e aconchegante em que vivemos como crianças mimadas, teve que montar necrotérios temporários para lidar com as pilhas crescentes de cadáveres. Nada como ouvir que milhões de pessoas estão no desemprego ou em empregos cada vez mais precários para nos acordar para a realidade: esta pandemia não é uma simulação.

Não. Isto é a vida real. É para isso que temos treinado e deveriamos ter treinado. “Nenhum papel é tão adequado à filosofia como aquele em que você está agora”, disse Marco Aurélio… quando o império de Roma parou e a praga assolou sobre a cidade. “A vida é uma guerra e uma jornada longe de casa”, disse ele, enquanto lutava, por anos a fio, contra invasores nas fronteiras do seu império.

Estamos a viver a história, assim como Marcus e todos os estoicos estavam. Isto não é uma simulação. É hora de trabalhar. É hora de incorporar a filosofia e o yoga de que falamos. É hora de reunir essas virtudes críticas de Coragem, Temperança, Justiça e Sabedoria. O nosso modus operandi tem de mudar. Não podemos simplesmente adaptar e fazer tudo como antes, apenas de forma diferente. Temos realmente de mudar a nossa bússula. E Querer mais: não mais do mesmo, mas mais da Liberdade do Ser e não da do Ter.

Isso não será fácil, mas é o que está na nossa frente.

Estás com medo? Tudo bem.  Mas isso é em parte porque estás bem no olho do furacão —estás a olhar para tudo isto demasiado perto, com as contas para pagar, com os filhos a precisar, com os empregos a deixarem de o ser. Se pudermos diminuir o zoom, só um pouco, teremos alguma perspectiva. Somos lembrados de que isto também passará, que sobreviveremos.

Hemingway abre O Sol Também se levanta – ambientado após uma guerra terrível, que foi seguida por uma terrível pandemia, com todos os tipos de tragédias individuais comuns pelo meio – com um dos versos mais bonitos da Bíblia, um que soa como se pudesse ter sido escrito por Marco Aurélio:

“Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu…”

Todos os dias desde que esta crise começou, o sol nasceu e pôs-se. A lua saiu e brilhou. A relva cresceu. Bebés nasceram. Pessoas tiveram ideias. Pessoas apaixonaram-se. Isso é tão verdadeiro agora como foi durante a Peste que Marco Aurélio suportou por 15 anos, foi verdade depois, e será verdade sempre.

Temos que encontrar uma maneira de ter algum consolo nisso, para continuarmos em nós mesmos. Vamos superar isto, como sempre passamos por tempos difíceis. Haverá um novo normal. Vamos adaptar e ajustar.

A vida permanecerá para sempre, então não há razão para ficar com raiva ou com medo ou com amarguras. Apenas aguenta aí. Faz o melhor que puderes nos lugares certos com as pessoas certas. Não sejas como foste antes da pandemia, sê melhor.

P. S.:

Não tens de passar por tudo sozinho. A jornada de yoga de um praticante pode ser muito solitária, porvezes; sim temos que nos esforçar no auto-estudo (svadhyaya), mas em nenhum lugar diz que temos que fazer isso isoladamente. E acho que já temos confinamentos que cheguem nas nossas vidas por estes dias.

Um shala é um lugar de saúde física, mental e espiritual. E saber isso, ter isso como missão manteve-me firme nos meses em que tivemos de encerrar. Porque eu teria de prestar contas no momento em que decidisse reabrir. Prestar contas a quem? A quem viesse praticar no shala. Internamente, eu tinha uma responsabilidade para com os praticantes e não ia desapontá-los. A única forma de o fazer era manter-me à tona – praticando. Isso manteve-me responsável, e ainda mais empenhada na prática e nos compromissos que assumi quando o abri. Yoga é estar presente. Inteiramente. Sem adaptações, sem simulações. Yoga é presença integral.

 

(ENGLISH)

Many of us can be forgiven for having thought that this life thing was pretty easy. The last few decades have been pretty good to us. Booming economies. Great technology. Our wars have had limited impact on our populace and our recessions have been short.

We were living, as one academic said after the fall of communism, after the end of history. All those tragic, bleak moments of the past…were past us.

There’s nothing like a global pandemic—one eerily similar to the plagues of the ancient world—to disabuse us of that notion. Nothing brings that home quite like hearing that New York City, the crown jewel of this cushy, modern world, had to set up temporary morgues to handle the growing piles of bodies. Nothing like hearing that millions of people are out of work to make it clear that this is not a drill.

No. This is real life. This is what we have been—and should have been—training for. “No role is so well-suited to philosophy as the one you happen to be in right now,” Marcus Aurelius said…as Rome’s empire ground to a halt and the plague descended upon the city. “Life is warfare and a journey far from home,” he said, as he battled invaders at the frontier for years on end.

We are living through history, just as Marcus was and all the Stoics were. This is not a drill. It’s time to put on our big girl pants and get serious. Get to work. It’s time to embody the philosophy we have talked about. It’s time to muster those critical virtues of Courage, Temperance, Justice, and Wisdom.

This won’t be easy, but it’s what’s in front of us.

NOTE:

You don’t have to go through it all by yourself. A practitioner’s yoga journey can be very lonely at times; yes we have to strive in self-study (svadhyaya), but nowhere says we have to do this in isolation. And I think we’ve got enough lockdowns in our lives these days.

A shala is a place of physical, mental and spiritual health. And knowing that, having that as a mission kept me going in the months we had to shut down. Because I’d have to be held accountable the moment I decided to reopen. Accountable to whom? To those who came to practice in the shala. Internally, I had a responsibility to the practitioners and was not going to disappoint them. The only way to do that was to stay afloat by practicing. This kept me responsible, and even more committed to the practice and commitments I made when I opened it. Yoga is being there. Entirely. No adaptations, no simulations. Yoga is integral presence.

“Provai-vos a vós mesmos”

10 de Agosto, 2020

“Vá anda, tens aqui um cãozinho para te animar”. Eu acelerei o passo e no fim da subida lá estava o farrusco que se deita de barriga para cima assim que me aproximo dele para lhe dar festas. O amigo que me  acompanhava sabia (por já me conhecer há muitos anos), que se há coisa que me poderia fazer esquecer o cansaço nas pernas, o calor e a fome, é um cão. Até porque o fim do trilho ainda estava, nesse momento da caminhada, longe, ao contrário das previsões do google maps que nos haviam dado falsas expectativas.

A ideia era fazer um trilho tranquilo, apenas 15km sem grandes subidas, segundo nos haviam dito. Por isso, demo-nos ao luxo de aproveitar (e desperdiçar muito tempo na primeira metade do trilho) parando algumas vezes, tirando fotos, mergulhando nas cascatas geladas que íamos encontrando e, no meu caso, abraçando imensas árvores pelas quais me apaixonei pelo caminho. E eu, apesar de já não o ser, cometi o erro de principiante: subestimei o caminho e achei que conseguiria fazer o trilho em poucas horas e que não valeria a pena levar comida.

Mas a meio do caminho, quando saímos da zona dos rios, esperava-nos um deserto sempre a subir, abrindo uma segunda etapa do bem diferente da primeira, só com subidas longas, intercaladas de algumas descidas de fazer chorar os joelhos. Depois dessa primeira subida interminável e em terreno árido, a fome veio em força e as pernas começaram a queixar-se. E ainda faltavam mais 3 horas de caminhada.

O meu amigo ainda tentou oferecer-me a comida dele, mas ele não é vegetariano. “Ah, comes a minha sandes. Eu tiro o fiambre e o queijo”. “-Não, guarda a sandes, se não a comes, encontramos sempre pelo caminho um cão que a coma”.

Nessa parte final, a sentir-me literalmente a usar as reservas de energia de backup, comecei a pensar no erro que tinhamos cometido ao ter perdido tanto tempo no início do caminho. Deu para desfrutar da parte mais bonita do trilho, mas fez com que o final acabasse por ser mais duro do que tinhamos previsto.

Quantas vezes isto não acontece na vida e na prática de yoga?

Vejo isso a acontecer muito naquelas pessoas que ‘vão para o yoga’ porque querem relaxar, e pelas mil e uma maravilhas que, hoje em dia, se prometem a propósito da prática de yoga. Querem os benefícios rapidamente, mas quando se apercebem de que afinal o processo implica muito mais do que uma musica relaxante, palavras bonitas e roupa fitness xpto, recuam. Quando percebem que, afinal, o verdadeiro processo de yoga é uma transformação completa daquele que não se limita a ficar pela rama das posturas e que o que está em causa na prática de yoga é a disciplina dos sentidos, um movimento de consciência, de treino de nós mesmos e não apenas do corpo no sentido de permanecermos com a experiência em vez de fugirmos dela. Porque quando escolhemos mantermo-nos na prática apesar dos altos e baixos de energia e nas nossas vidas, estamos activamente a escolher focar a nossa atenção e consciência naquela parte de nós que não muda. Como diz Donna Fahri, quando nos sentimos tristes, praticamos, quando estamos felizes, praticamos, quando estamos cansados praticamos, quando estamos enrolados nas teias do luto, praticamos; não praticamos para nos livrarmos de sentimentos ou para suprimi-los. Praticamos para que tudo possa fluir em nós.

Tal como no trilho de ontem, quando a mente cedia ao cansaço das pernas e à fome, o corpo acelerava o passo e tentava correr para terminar aqueles quilómetros mais depressa, mas a prática de yoga surgia e eu abrandava o passo, voltando ao ritmo certo sem querer abreviar ou fugir daquela lição que aquele terreno árido me estava a dar.  “Examinai-vos a vós mesmos; se permaneceis na fé, provai-vos a vós mesmos”, nas palavras de Paulo de Tarso.

O domínio de um ásana (postura de yoga) é a completude de tarefa atrás de tarefa, depois vem a permanência, a superação do desafio, e a observação alinhada da mente e corpo. Assim, também no hiking ou caminhada em trilhos.

Iyengar dizia que independentemente do motivo por que se começa a praticar yoga, mesmo nos ásanas mais simples experimentamos 3 níveis de busca ou inquirição: “a inquirição externa que traz firmeza ao corpo, a inquirição interna que traz consistência e quietude à inteligência, e a inquirição íntima que traz benevolência ao espírito”.

Se cultivarmos bem estas etapas, aprendemos a nunca subestimar nenhum início de caminho na nossa vida e não cairmos na ilusão da expectativa de um fim rápido e indolor. Num trilho ou no tapete, a pratica é de pequenas acções e movimentos, negociações com o nosso «eu» e com o corpo, contestações dentro de nós (corpo-mente-prática); são um processo dialéctico que levam a uma fusão com a condição primária da nossa existência.