Yoga e alimentação (I)

8 de Fevereiro, 2020

“Se quisermos ter perspicácia e vigilância enquanto praticamos yoga, então temos d emudar os nossos hábitos alimentares”

Existe muita literatura disponível sobre aliemntos e dietas para a prática de yoga. Mas quando nos apaixonamos relamente pelo yoga sabemos que priemiro vem o yoga e o resto depois. Isto significa que a prática naturalmente vai despertar a sabedoria do nosso corpo que saberá melhor escolher e manifestar o que é melhor para ele e aquilo que já não se adequa.

Na Bhagavad Gita, Krishna diz que a alimentação adequada ao crescimento de sattvic (um corpo e mente harmoniosos) é a que é deliciosa, suave, doce, substancial, agradável e que promove uma vida longa, vitalidade, energia, saúde, felicidade e alegria. A alimetação tamásica (que nos deixa letárgicos, cansados e sem energia) é aquela que não tem sabor, como as sobras, restoas, ou produtos congelados e processados.

A prática de ásana guia-nos para ter sensibilidade e comer aquilo que o corpo necessita a cada dia. Por vezes, o sistema exige alimentos liquidos e, outras vezes, doces e salgados, mas tudo isto é ordenado pelo organismo de acordo com as suas necessidades.

O Hatha Yoga Pradipika diz-nos que evitemos demasiada comida (atyahara). Sugere ainda comer apenas quando temos fome e aquilo que o sistema pede. A prática regular, disciplinada e genuína de ásanas e pranayama torna-nos até indiferentes aos nossos pratos preferidos, mas permite-nos saboreá-los plenamente sem sermos deles escravos. Deixe de praticar durante oito dias e a indisciplina instala-se – os hábitos antigos regressam. Através da prática de yoga, apreciamos os alimentos, mas não nos viciamos neles. Ao praticar regularmente, o sistema digestivo fica estimulado e a pessoa consome menos do que geralmente consome.

Por outro lado, refere Pedro Kupfer, o “yogi consciente não se torna vegetariano cegamente, porque alguém mandou, ou porque assim se faz há milênios. O yogi consciente adota o vegetarianismo como um corolário do processo de compreensão da realidade da vida e do papel que o homem exerce no planeta”.

Explica ainda Kuper que:

Então, como implementar uma dieta vegetariana sem criar um trauma em nossos hábitos? Existem duas opções. A primeira, radical, é simplesmente parar da noite para o dia, após haver refletido e amadurecido a idéia por tempo suficiente como para não se arrepender da decisão ao primeiro convite para o churrasco do próximo domingo.

A segunda, mais adequada para muita gente, é implementar uma série de mudanças graduais nos hábitos alimentares e começar a entrar com mais regularidade na cozinha para escolher e preparar o próprio alimento. Ambas as opções exigem planejamento, pesquisa, bom senso e, principalmente, uma mudança de visão em relação ao que significa realmente alimentar-se.

É preciso ter muita coragem para combater o preconceito e os hábitos sociais arraigados. Um vegetariano recente pode ouvir comentários como estes, da parte de seus amigos ou família: ‘Então você virou vegetariano? Você está comendo só grama?’ ‘Mas essa canja tem pouquinha galinha. Você não vai comer mesmo assim?’ Se você não mantiver o foco em seu propósito, a pressão social ou a familiar podem fazer fracassar seu plano.

Pessoalmente, parei de comer carnes e ovos há mais de vinte anos. Em verdade, já havia tomado a decisão no momento em que tive meu primeiro contato com o Yoga, há mais de vinte e cinco anos. Porém, quando anunciei para a minha mãe, desde o alto dos meus treze anos de idade, que havia decidido parar de comer carnes, ela simplesmente me deu uma bofetada e disse: ‘Se você acha que vou cozinhar especialmente para você sem carne, está redondamente enganado’. O assunto morreu aí mesmo, mas eu não desisti. Hoje em dia, minha mãe adotou a dieta vegetariana e ajuda muita gente que quer parar de comer carnes.

Não fui bem sucedido naquela primeira tentativa por causa da minha situação de dependência familiar. No entanto, o tempo passou e, quando tornei-me e comecei a morar sozinho, consegui finalmente realizar esse objetivo. Devo dizer que não me custou nada parar com as carnes e os ovos, pois minha motivação em relação à prática era muito forte e, depois que você desenvolve uma certa sensibilidade através da meditação, os mantras e as práticas mais sutis do Yoga, o vegetarianismo torna-se uma necessidade.

Definição de vegetarianismo no contexto do Yoga

Por vegetarianismo, entende-se aqui a dieta alimentar que exclui quaisquer tipos de carne, seja de vaca, ovelha, porco e outros mamíferos, mas igualmente a das aves, peixes e ‘frutos do mar’. Os ovos tampouco fazem parte da dieta vegetariana do Yoga, pois se considera o ovo um tipo de carne líquida”

 

Fontes

On Diet and nutrition, Astadala Yogamala, Volume 8, pp.51-59

Vegetarianismo e Yoga

 

Ujjáyí

8 de Fevereiro, 2020

 

A respiração profunda difunde a energia pelo corpo.

Deixamos aqui apenas a variação na posição deitada (com expiração normal). Para refinar a técnica será melhor sob as instruções de um professor qualificado.

Aqueles que sofrem de falta de energia e tensão baixa podem beneficiar desta técnica.

  • Inspire lenta e profundamente, alongando a respiração sem forçar. Inspire pelas duas narinas de forma uniforme e encha os pulmões sentindo-os a expandir para fora laterlamente. Mantenha o cérebro passivo. Expire normalmente, mantendo garganta e narinas relaxadas. Não deixe a caixa torácica colapsar durante a expiração.
  • Repita pelo menos 6 ciclos.

O ujjayí também muito conhecido por ser  aplicado em algumas práticas de ásana, como a do Ashtanga Vinyasa Yoga, e é feito da seguinte forma:

a) Inspire pelas narinas, contraindo levemente a glote e produzindo um leve ruído que deve ser suave e contínuo;

b) retenha o ar nos pulmões com a glote totalmente fechada e jalándhara bandha;

c) expirar pelas narinas, contraindo a glote (como se estivesse a engolir saliva) e produzindo o mesmo ruído suave do atrito do ar na garganta, que Swami Satyananda chama de suave ressonar, um som semelhante ao som do vento a passar entre as folhas das ávores.

Repare que o ujjayí e qualquer pranayama com retenções deve ser evitado para pessoas com problemas cardíacos ou de pulmões. Para indivíduos saudáveis, o ujjayí é uma excelente técnica.

Benefícios

As trocas gasosas são melhoradas com ujjatí em comparação com a respiração normal. A ligeira compressão ou recolhimento do abdómens estimula os centros de força (chakras) dessa área. Os efeitos cognitivos e mentais dão-se quando a pessoa consegue aplicar a sua atenção na passagem do ar pelas narinas e no som produzido. A prática de ujjayí desperta energias psiquicas e prânicas,aumenta a temperatura e calor corporais, normaliza o funcionamento da tiroide e sistema endócrino e promove relaxamento.

 

 

Há sempre pessoas e ‘casos’ que nos marcam neste caminho de partilhar yoga com outros.  X é um desses casos. Quando conheci X pela primeira vez, X não era capaz de manter a atenção em algo ou numa conversa por 5 minutos sequer. A sua disposição variava entre uma letargia profunda e os altos e baixos próprios de quem toma muita medicação. Para além do olhar disperso, fugidio e baço que nunca mirava em frente, a primeira coisa que notei em X quando entrou na sala de prática, ainda no antigo shala, foi a postura que já pouco tinha de erecta: umas costas curvadas que escondiam totalmente o peito, as pernas sem firmeza, o andar bamboleante de quem tremia por dentro e por fora. E as crises de choro que tinha no savasana que era incapaz de fazer por 1 minuto sequer.

Passaram-se 3 anos e qualquer coisa e dizer que X já não é a mesma pessoa poderia ser um cliché. X é essa pessoa que se ergueu, que apostou em si quando tudo lhe dizia para não o fazer. Com uma das profissões mais desgastantes que se pode ter, com uma vida familiar exigente, encontrou sempre  dedicação, a força e o empenho para se dedicar à prática e ao que era preciso ser feito para se ajudar. Vem de longe de Matosinhos, mas ainda assim é rara a semana em que não vem praticar pelo menos 4 vezes por semana. A certa altura, e por experiência própria, achei que ela era a pessoa que a prática de ashtanga podia ajudar. Tentei convencê-la durante quase 1  ano; X achava que nunca ia memorizar a sequência de posturas. Um dia, lá se decidiu a tentar. Eu sabia que ela precisava de uma solução mais ‘radical’  e que as aulas de hatha yoga, em que são poucas as pessoas que se conseguem focar em si, já não eram suficientes. X precisava de enfrentar os seus demónios a sério, mas também ganhar a confiança, de saber por si, que era capaz, que é CAPAZ. Continua a ser ashtangi com mais assiduidade- complementando ainda com algumas aulas de hatha yoga. Está presente em qualquer  oportunidade adicional que há para aprender mais e segue em frente. Se deixou de ter dias maus? Não. Se deixou de ser, por vezes, tomada por sentimentos menos positivos? Não. Mas ninguém vai alguma vez deixar. Sem que alguma vez mo tenha dito, sei que houve (muitos) dias em que que X saíu frustrado(a) das aulas, que saíu zangado(a) comigo, que se perguntou se valeria a pena tanto esforço e dedicação. Não lhe mostrei os vários estudos científicos que mostram como o yoga em geral e o ashtanga em particular promovem resultados positivos nos problemas de saúde que X enfrentava. Houve dias em que fui dura e muito, muito assertiva com X. Houve dias em que lhe repeti inúmeras vezes para respirar, que abrisse o peito, que acreditasse, que fizesse, que não desistisse. Até ela quase não me poder ouvir 🙂 Não o faço com toda a gente, mas acima de tudo porque X teve sempre a bonita atitude de se colocar humildemente como aluna e estudante de yoga. Não minha aluna ou deste shala, mas do Yoga. E isso, no mundo de fast yoga, de fast trainings, de fast students, é cada vez mais raro. Mas para problemas fundos, a solução tem de ser radical. E a proposta do yoga é radical: a de ganhar autonomia para procurar as nossas próprias repsostas. Como todos os textos antigos de Yoga insistem em ensinar que, se pretendemos alcançar o Divino (ou a solução definitiva para a nossa vida) em nós, é-nos recomendado exercer um afiado, constante, profundo e claro discernimento, para defender-nos de ilusões, fantasias, equívocos e engodos.

Só assim podemos evitar iludir-nos e, se já estivermos iludidos, desiludir-nos em relação ao mundo impermanente e, portanto, ilusório e decepcionante.Só depois de nos sentirmos desiludidos quanto à impossível perenidade de tudo, pois tudo é transitório, chegaremos à mais libertadora e iluminadora conquista, que é desapegar-nos das coisas do mundo, sem o qual não podemos começar a caminhada rumo à única realidade perene”.

Tal como nos diz a Gheraṇḍa Saṁhitā (1:5)

“Assim como pelo aprendizado do alfabeto pode-se, através da prática, dominar todas as outras ciências, assim também, através de praticar inicialmente o Hatha Yoga, pode-se ascender à posse da Verdade.” ,

X podia ter seguido o caminho largo do ego e do bhoga (aquele que só busca o prazer e o que lhe agrada os sentidos, dominado por mil desejos, apegos e aversões), mas seguiu o caminho estreito da dedicação incondicional, da prática regular, do esforço por se auto-superar (de tapas, como falámos no último post). X optou pela inteligente auto-reeducação. E tem sido um privilégio observar a sua evolução, ver o caminho que fez, ver o ser humano incrível que é. Ver o seu corpo cada vez mais forte, a sua respiração cada vez mais presente, a postura cada vez mais leve. É sempre um prazer ver X no tapete, ver X vencer as suas lutas mesmo quando X pensa que não as está a vencer. Ver o seu pensamento e o seu coração a serem cada vez mais luminosos como sempre foram e que X vai finalmente vislumbrando.

Porque hoje é um dia especial, muito obrigada por esta viagem  partilhada!

 

Kobe Bryant e ashtanga yoga

29 de Janeiro, 2020

Sara Correia

 

Kobe Bryant representa algumas coisas que admiro bastante: o foco profundo que não ia ao sabor “dos ventos”, a capacidade de treinar ao máximo (sensatamente) e uma dedicação tenaz em melhorar-se a si enquanto atleta e pessoa.

É um exemplo de uma das capacidades que o ashtanga yoga trabalha muito em especial (e que eu tento incutir também nas aulas de hatha yoga): tapas.

E isso lembra-me quando ouço dizer que a prática de ashtanga é só acrobacia. Claro que quem diz isto é quem nunca praticou ashtanga ou quem acha que uma prática de yoga é só para ‘relaxar’ e fazer o que se quer, como se quer e o que se gosta. E este é o ponto que distingue um professor de yoga de um instrutor de ásana. Em algum ponto, um professor de yoga vai cutucar no ego do seu aluno, vai tocar nas feridas abertas desse ego (orgulho, ambição, dispersão, egoísmo, falta de honestidade com o próprio ou de seriedade, etc.).

Uma prática de ásana com a intenção correcta desenvolve todos os aspectos que Patanjali falou sobre o yoga: yamas e niyamas, ásana, pranayama, dyana, prathyara, etc. É uma pratica de tapas, de superação pessoal com o objectivo simples de nos tornarmos melhores pessoas, como ouvi Sharmila a dizer. É uma prática que vai trabalhar gostos e aversões (afinal quem gosta de fazer um Janu sirsasana C ou um navasana 5 vezes??). É uma prática que vai desenvolver todos os aspectos éticos de maneiras muito específicas.

Quando fui para Barcelona e lá pratiquei num dos shalas mais tradicionais de ashtanga yoga já fazia toda a 1ª série mas há menos de 1 ano. Na primeira prática, a professora cortou-me a prática para metade. No dia seguinte, quando voltei e terminei a prática no ponto em que ela me havia parado, ela chegou a dizer-me: “Nunca pensei que voltasses. Até hoje nenhum aluno a quem tenha cortado a prática voltou”. Na altura, eu não percebi o que ela queria dizer. Para mim, era-me indiferente em que postura estivesse. Havia tanto para aprender em cada uma delas e ainda há depois de tantos anos de prática. Em certa altura, um dos professores desse shala convidou-me para o assistir e dizia-me sempre: “no final diz-me o que achaste, o que viste”. Na terceira vez que isso aconteceu, respondi-lhe: “vejo corpos muito flexíveis, grandes posturas, mas egos muito débeis e exacerbados”. Ele sorriu e disse-me: “É isso! Isso é ashtanga. Um dia ainda vais ensinar”. Eu ri-me sem o levar a sério.

Este tapas é também usado como critério para se avançar nas séries. Não se avança para uma segunda série sem ter alguns anos de prática diária da primeira e não se avança pela segunda série dentro sem que haja já implementada uma prática regular consistente. Quando começam a haver desculpas, a prática perde-se. O foco perde-se. Há pessoas que poderiam fazer posturas da segunda série perfeitamente, mas ainda têm dificuldade nas posturas da primeira série e vice-versa. Assim como quem quer praticar segunda série, tem de ter estabelecido o compromisso de praticar diariamente. Ir com demasiada sede ao pote só serve para arranjar lesões e perder o essencial. Na prática de ashtanga, não há saltos, não há omissões, há tempo dado ao tempo. Porque a disciplina (tapas) é o primeiro passo a ser desenvolvido e dado por quem é honesto consigo próprio na sua prática. E como já disse muitas vezes, até hoje ainda não conheci ninguém que não pudesse dispensar pelo menos 1h por dia para praticar.

O facto do ásana ser o aspecto mais visível do yoga só significa que ele é a entrada para se trabalhar todos os aspectos subtis que são realmente o objecto do yoga: a mudança interior. O nosso shala tenta tudo para incentivar essa honestidade, essa dedicação e profundidade na prática porque é isso que abre as portas a tudo o mais. Porque sem isso, mais vale praticar yoga em tendinhas, ou fazer qualquer outra coisa que não é yoga.

No hatha-yoga genuíno não há nada de fortuito ou feito só porque sim; tudo resulta da verificação pessoal e toda as suas técnicas já foram experimentadas durante séculos.
A dificuldade está em parar. Há tanta ansiedade, tanta pressa, tanto nervosismo, tanto por fazer sem que nada se faça realmente, tantos movimentos automáticos e compulsivos, tanta inquietudo, que até a praticar yoga não se pode parar, nem ficar sentado a meditar depois da prática de ásana e o que importa é fazer mais e mais. Estar sempre hiperactivo e esternalizado é o fácil para a nossa mente, tal comi para o macaco é fácil saltar de ramo em ramo. Mas é a na quietude, no parar consciente que cada um se revela. Até Carl Jung alertou para os perigos de estarmos sempre voltados para o externo. Não para de mover-se, de falar, de pensar, de manipular, de enredar, de complicar, de perder-se em automatismos do corpo e da mente, perdendo energia alheando-se e jogando às escondidas consigo mesmo. O segredo está e parar, nem que seja uns minutos por dia.
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Por esta altura, já todos ouvimos dizer que a prática de yoga desenvolve a disciplina e implica seguir um método sistemático de aprendizagem (anushasanam). Toda a prática está mais relacionada com a qualidade ou com a convicção na prática pessoal do que com a quantidade dessa mesma prática. Isto é descrito nos sutras 1.21.e 1.22. Mas não é nestes que me vou focar hoje.

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