Seguir a verdade

30 de Abril, 2020

“Antes, seguindo a verdade em caridade, cresçamos em tudo  – Paulo.

 

Porque a verdade participa igualmente da condição relativa, inúmeros pensadores enveredam pelo negativismo absoluto, convertendo o materialismo em zona de extrema perturbação intelectual.

Como interpretar a verdade, se ela parece tão esquiva aos métodos de apreciação comum?

Alardeando superioridade, o cientista oficioso assevera que o real não vai além das formas organizadas, à maneira do fanático que só admite revelação divina no círculo dos dogmas que abraça.

Paulo, no entanto, oferece indicação proveitosa aos que desejam penetrar o domínio do mais alto conhecimento.

É necessário seguir a verdade em caridade, sem o propósito de encarcerá-la na gaiola da definição limitada.

Convertamos em amor os ensinamentos nobres recebidos. Verdade somada com caridade apresenta o progresso espiritual por resultante do esforço. Sem que atendamos a semelhante imperativo, seremos surpreendidos por vigorosos obstáculos no caminho da sublimação.

Necessitamos crescer em tudo o que a experiência nos ofereça de útil e belo para a eternidade, mas não conseguiremos a realização, sem transformarmos, diariamente, a pequena parcela de verdade possuída por nós, em amor aos semelhantes.

A compreensão pede realidade, tanto quanto a realidade pede compreensão.

Sejamos, pois, verdadeiros, mas sejamos bons.”

 

 

As estrofes da Gītā que mencionam os 20 valores são:

amānitvam adambhitvam ahiṃsā kṣāntir ārjavam |
ācāryopāsanaṃ śaucaṃ sthairyam ātmavinigrahaḥ || 13.8 ||

Ausência de vaidade, ausência de pretensão, não-violência,
acomodação, retidão, dedicação ao mestre, pureza, persistência, autocontrole;

indriyārtheṣu vairāgyam anahaṃkāra eva ca |
janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam || 13.9 ||

desapego em relação aos objetos dos sentidos,
ausência de egoísmo e compreensão das limitações
do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor;

asaktir anabhiṣvaṅgaḥ putradāragṛhādiṣu |
nityaṃ ca samacittatvam iṣṭāniṣṭopapattiṣu || 13.10 ||

ausência de apego à ideia de posse, ausência de apego
em relação aos filhos, o cônjuge, o lar e outros,
equanimidade constante independente da realização
do desejado ou do não desejado;

mayi cānanyayogena bhaktir avyabhicāriṇī |
viviktadeśasevitvam aratir janasaṁsadi || 13.11 ||

devoção inquebrantável a mim, [sabendo que] não há
outro [além de Īśvara], apreço por um lugar tranquilo,
ausência da necessidade da companhia de pessoas;

adhyātmajñānanityatvaṃ tattvajñānārthadarśanam |
etaj jñānam iti proktam ajñānaṃ yad atonyathā || 13.12 ||

busca constante do conhecimento de Ātma, apreciação
do sentido do conhecimento da verdade, isso é chamado
jñāna, conhecimento. O contrário a isto é ajñāna, ignorância.

Agora, em lista:

1. Amanitvam, ausência de vaidade, arrogância ou necessidade de elogio.

2. Adambhitvam, ausência de pretensão.

3. Ahiṁsā, não-violência.

4. Kṣānti, pacífica adaptabilidade.

5. Arjavam, retidão.

6. Acāryopāsanam, dedicação ao professor.

7. Śauchan, purificação.

8. Sthairyam, firmeza de propósito.

9. Ātma-vinigraha, comando sobre o pensamento.

10. Indriyartheśu vairāgyam, desapego em relação aos objetos dos sentidos.

11. Anahaṅkāra, ausência de identificação com as coisas do ego.

12. Janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam, reflexão sobre as limitações do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor.

13. Aśakti, ausência de apego à ideia de posse.

14. Anabiśvaṅgaḥ putradaragṛhādiśu, equanimidade afetiva.

15. Nityam samacittatvam iśtaniṣṭopapattiṣu, equanimidade constante.

16. Bhaktir avyabhicāriṇī, devoção inabalável.

17. Viviktadeśa sevitvam, apreço por um lugar tranquilo.

18. Aratiḥ janasamsadi, apreço pela solitude.

19. Tattvajñānārthadarśanam, foco e clareza na verdade.

20. Adhyātmajñāna nityatvaṁ, disposição contínua para o autoconhecimento.

Niyamas

21 de Abril, 2020

Yamas e niyamas orientam o indivíduo para uma maior clareza na relação com tudo o que é externo e para uma maior profundidade em tudo o que é interno. Esforços nesta direcção são companhias constantes a todos os outros aspectos da prática e estudo do Yoga, sendo o processo sempre gradual.

Śaucan é a purificação. Mas é mais do que higiene do indivíduo e dos espaços onde circula. É uma atenção ao que será mantido e o que é eternamente limpo. É a percepção de que o que está sujeito a decair é o corpo, o externo; o que não decai é o que somos. A limpeza externa inclui os cuidados com o corpo, a alimentação, os hábitos desaconselhados como o uso de drogas, ou de alimentos tóxicos que gerem comportamentos condicionados e contraproducentes com o que se pratica no Yoga. A limpeza interna inclui uma selecção cuidado dos estímulos que damos à nossa mente, à dieta de pensamentos que alimentamos.

Santosha (contentamento) é a capacidade de estarmos confortáveis com o que temos e com o que não temos. A felicidade que vem com a aquisição de objectos ou experiências é invariavelmente temporária. Esta capacidade de cultivar um estado interior de permanente alegria, independentemente das circunstâncias externas é a chave para a felicidade total. É capacidade de saber viver a sua própria vida, fazendo o melhor que pode com o que tem.

Tapas é a remoção de impurezas físicas ou mentais através de hábitos correctos de sono, actividade, nutrição, trabalho e relaxamento. É conseguir apurar um ponto de eficiência e rigor no nosso quotidiano que nos permita superar os obstáculos quando é preciso exercitando a determinação, força de vontade concentrada, austeridade e um esforço sobre si próprio.

Como diz Kṛṣṇa na Bhagavadgītā: “Uma linguagem que não fira, verídica, amigável e benéfica, o estudo regular das escrituras, tal é o tapas da palavra. A serenidade e clareza de espírito, a doçura, o silêncio, o autodomínio, a total purificação do caráter, tal é o tapas consciente.

Svadhyaya é a capacidade de estudo motivada pela necessidade de rever e avaliar o nosso progresso. Quando desenvolvido ao seu nível mais elevado- um processo que se prolonga por toda vida até aos seus últimos momentos de vida – o estudo apropriado aproxima o indivíduo de uma compreensão do que é mais complexo.

Diz a Viṣṇu Purāṇa, VI:6.2:
“Do estudo deve-se passar ao Yoga.
Do Yoga deve-se passar ao estudo.
Pela perfeição no estudo e no Yoga,
a Consciência Suprema se manifesta.
O estudo é um dos olhos com que vemos o Ser.
O Yoga é o outro”.

Isvarapranidhana é uma reverência a uma inteligência superior ou a aceitação das nossas limitações perante essa inteligência e ordem superior. É nessa reverência que ganhamos confiança para direccionar as nossas mentes para essa inteligência superior em todas as nossas acções e pensamentos. A melhor definição de Īśvara pranidhāṇa está na Bhagavadgītābhavitam bhavati eva: “O que tiver que ser, será”.

 

O sábio Patañjali, autor do Yogasūtra, é sempre representado
como tendo forma de serpente na parte inferior do corpo

O que são?

O rāja yoga, sistematizado pelo sábio Patañjali nos conhecidos YogaSútras, sistematiza e enumera o sistema ético sobre o qual a prática do yoga assenta e sem a qual a prática não produzirá o efeito pretendido. Também é traçado um caminho de conhecimento discriminativo e de meditação. O praticante aprende a lidar consigo mesmo, os seus medos, obstáculos internos, as latências inconscientes que alimentam sem cessar o fluxo do pensamento e que ditam muito do que somos e fazemos. Nesse processo de exploração do universo interno tornamo-nos cientes do que somos.

Os Yogasūtras são o texto clássico mais valorizado pela comunidade de ashtanga yoga, mas, como modelo de yoga, são suficientemente abrangentes para integrarem o haṭha yoga. O ashtanga yoga é hatha yoga.

 

O yoga ensinado por Patañjali é conhecido por vários nomes como Aṣṭāṅga yoga de Patañjali, Patañjala rāja yoga ou simplesmente como o clássico rāja yoga. Vejamos o que entende Patañjali por yoga. A definição de yoga encontra-se no segundo sūtra do primeiro capítulo – Samādhi Pāda.

Qualidades que somos e que desenvolvemos

Nos seus 196 aforismos, Patanjali delineia o processo de nos tornarmos inteiros, explica como devemos cultivar 10 qualidades (yamas e niyamas) para reconhecermos a nossa natureza como seres completos e felizes.
Quando estamos centrados na nossa natureza, estas qualidades brilham por si mesmas. Estes 10 atributos, os yamas e niyamas, são tradicionalmente considerados os preceitos éticos que estão na base de todos os ensinamentos do Yoga. A prática destes preceitos é mais importante do que qualquer outra prática dos 8 membros do ashtanga yoga. Isto porque sendo Patanjali tão lógico e sistematizado na exposição do seu texto, a proeminência dada a esses dois aspectos não será por acaso. Os yamas e niyamas são, na verdade declarações enfáticas do que somos e de como nos relacionamos com a nossa natureza, pois o que nos restringimos de fazer – nessas 10 recomendações – é, no fundo, de nos vermos como separados uns dos outros. Quando há um sentido de unidade entre todos, por que haveremos roubar algo de alguém? Assim como quando estamos intimamente ligados a alguém, não vamos ter qualquer acto de violência para com ele.

Usamos o Yoga não para nos corrigirmos ou punirmos, mas para vermos quem realmente somos. Para o Yoga é a desconexão com o ‘outro’ que está na base de todos os equívocos.

Como é que a nossa verdadeira natureza é de amor e de compaixão, quando no dia a dia nos vemos com pensamentos tão confusos, tão limitados, tão carentes, e nos vemos sitiados entre negatividade e emoções destrutivas?

Patanjali diz-nos que falhamos em reconhecer a nossa bondade intrínseca devido a uma incapacidade momentânea de compreender a vida silenciosa e omnipresente que se manifesta através de nós. E por que é que não falhamos nesse reconhecimento? Porque na maior parte do tempo o nosso modus operandi primário consiste em nos identificarmos e participarmos no movimento transitório de pensamentos, sentimentos, memórias, fantasias, sensações, ideias, julgamentos sobre nós e os outros. Esta panóplia de sensações, de experiências, de desejos e de aversões é tão convincente que passamos grande parte da nossa vida a acreditar que isso é o que somos e o que nos define. Tragicamente, vamos vivendo a acreditar que somos os nossos medos, as nossas raivas, e desapontamentos. Vamos vivendo convencidos de que somos o nosso corpo, as nossas rugas, os nossos sucessos e fracassos.

Esse é um dos motivos por que a prática de ásanas é tão importante: porque vamos percebendo em primeira mão que as nossas sensações, as nossas emoções, as nossas vitórias e limitações são apenas visitantes temporários. E quando conseguimos alguma quietdue na mente e permanecer nesse lugar de quietude, percebemos que o anfitrião de todos esses convidados é a nossa consciência que está sempre presente, imperecível.

Ou, como Patanjali, define no verso:

yogaścittavṛttinirodhaḥ || 2|| Yoga é a cessação das modificações da mente

O yoga é, então, definido através de 3 termos simples: chitta-mente; vrtti- actividade mental ou pensamento e nirodha- absorção ou cessação.

Os Yoga sutras são divididos em 4 capítulos, diz-se devido ao facto de que cada um deles representa o ensino dado a 4 discípulos diferentes.

O primeiro capítulo apresenta todo o terreno do Yoga- as suas características, obstáculos, e como lidar com os problemas que vão surgindo e o que acontece à mentee m consequência disso. Esse capítulo chama-se Samadhipada, por falar de Samadhi que significa complete absorção e união do indivíudo com o objecto de contemplação. Esse objecto pode ser qualquer coisa- ciência, arte, cosmos ou Deus.

Neste primeiro capítulo, Patanjali diz-nos que alguns dos presentes do yoga são uma clareza e discernimento, satisfação e plenitude, serenidade e pureza na acção. Para isso, ele começa por definir alguns dos grandes conceitos que sempre ocuparam filósofos e pensadores de todos os tempos: mente, consciência, fé, Deus.

Soluções para resolver problemas e cultivar a atenção:

  • Adoptar uma attitude positive perante os outros;
  • Técnicas de respiração correctas;
  • Análise regular e exaustiva do papel dos órgãos dos sentidos;
  • Questionamento sobre quem sou eu

Vimos ainda algumas práticas simples para começar e que nos podem ajudar a construir a nossa casa de Yoga:

  1. Fazer escolhas que levem à tranquilidade estável
  2. Estabecer uma convicção fore e inabalável
  3. Estar atento ao colorido dos pensamentos
  4. Treinar a mente para ser focada
  5. Discernimento a todo os níveis e desapego
  6. Prática, prática, prática

70X7

16 de Abril, 2020

“Voltai os vossos olhares para a frente; quanto mais vos elevardes pelo pensamento acima da vida material, menos sereis magoados pelas coisas da Terra”.

O livre-arbítrio, enquanto lei base da progressão da cada um de nós, permite ao Homem viver o equívoco.

Jesus ensinou-nos a dizer pela oração do Pai-Nosso: “Perdoai-nos, Senhor, as nossas faltas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”. Neste sentido, uma compreensão contrária sobre o perdão, é fruto da ignorância espiritual, e uma fabricação dos homens onde impera a lei do medo no lugar do uso da razão.

Coisas simples como agradecimento, perdão, solidariedade:

  • Permitem alinhar o pensamento para com outros de forma activa.
  • Criam um canal de comunicação entre o nosso íntimo e aqueles a quem a dirigimos.
  • O indivíduo que vive segundo as premissas da solidariedade vive menos centrado em si, pois deposita grande atenção no trabalho de equipa e no bem comum. Uma sociedade que vive com esta orientação é mais protegida e desenvolvida, pois cada indivíduo tem sobre si a atenção e o cuidado de muitos outros. Uma sociedade de indivíduos unicamente preocupados com o seu próprio bem-estar é egoísta, pelo que é mais desprotegida. Aqui, cada um tem somente o seu próprio olhar a cuidar de si.
  • O primeiro terá mais sucesso porque pode somar às soluções que procura, a inteligência de outros – daqueles que se preocupam com ele de forma indulgente, e que são com ele solidários. É uma vivência solidária reciproca, em equipa, em comunidade. O valor total de inteligência dirigida em favor daquele que age de forma solidária e indulgente para com outros, inclui a resultante da interacção social (física), mas também a espiritual, daqueles que promovem e a quem promovem o bem. Há aqui um efeito multiplicador que nos esquecemos de contabilizar porque ainda nos é difícil assimilar o alcance da mensagem de Jesus.
  • O segundo cuida somente de si, e porque negligencia os outros, é provável que receba desses a mesma negligência. Sim, vivemos numa rede social, mas também espiritual.

O esquecimento das ofensas é próprio da alma elevada, que paira acima dos golpes que lhe possam desferir. Uma é sempre ansiosa, de sombria susceptibilidade e cheia de amargura; a outra é calma, pacífica e caridosa.

“Quantas vezes perdoarei a meu irmão? Perdoar-lhe-eis, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes”. Aí tendes um dos ensinos de Jesus que mais nos devem percutir a inteligência e mais alto falar ao coração. Ele, o justo por excelência, responde a Pedro: perdoarás, mas ilimitadamente; perdoarás cada ofensa tantas vezes quantas ela te for feita; ensinarás a teus irmãos esse esquecimento de si mesmo, que torna uma criatura invulnerável ao ataque, aos maus procedimentos e às injúrias; serás brando e humilde de coração, sem medir a tua mansuetude; (….) Se os actos do outro vos prejudicaram, mais um motivo aí tendes para serdes indulgentes, porquanto o mérito do perdão é proporcionado à gravidade do mal. Nenhum merecimento teríeis em relevar os agravos dos vossos irmãos, desde que não passassem de simples arranhões” (Simeão, 1862).

Além disso, perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio; perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar-se melhor do que era. “Nunca perdoarei”, é uma frase sem sentido, pois pronuncia a sua própria condenação. Quem sabe, aliás, se, descendo ao fundo de vós mesmos, não reconhecereis que fostes o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por uma alfinetada e acaba por uma ruptura, não fostes quem atirou o primeiro golpe, se vos não escapou alguma palavra injuriosa, se não procedestes com toda a moderação necessária?

Todavia, há duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem, com referência ao seu adversário: “Eu lhe perdoo”, mas, interiormente, alegram-se com o mal que lhe advém, comentando que ele tem o que merece. Quantos não dizem: “Perdoo” e acrescentam. “mas, não me reconciliarei nunca; não quero tornar a vê-lo em toda a minha vida.”

Aqui recorremos ao que nos ensinou Paulo de Tarso: “O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras”.

Com o devido tempo, todos somos capazes de perdoar e de ser perdoados.

Isto não significa que temos de trazer para a nossa intimidade pessoas a quem achamos que nos fizeram grandes ofensas, apenas que as podemos perdoar.

Um caminho de 8 passos

11 de Abril, 2020

Paschima namaskar

 

Os 8 passos enumerados por Patanjali no seu livro sobre ashtanga yoga (há cerca de 200 D.C). Na sabedoria indiana, é comum agrupar práticas e ensinamentos : os 8 membros do ashtanga yoga, os 4 Vedas, as 108 upanishads, as 24 categorias de experiência e por aí fora. Enumerar ajuda a organizar as coisas na mente.

Baseando-me no livro de Krnsamacharya, esses 8 membros do ashtanga yoga são:

  1. Yama: as nossas atitudes para com o que nos rodeia
  2. Niyama: as nossas atitudes para connosco
  3. Asana: a prática de posturas psicofísicas
  4. Pranayama: a prática de técnicas respiratórias
  5. Pratyahara: a restrição no uso dos nossos sentidos, optando pelo recolhimento destes
  6. Dharana: a capacidade de dar uma direcção à mente
  7. Dhyana: a capacidade de desenvolver interacções com o que procuramos compreender, através da meditação
  8. Samadhi: integração completa com o objecto que queremos entender: a plenitude da nossa natureza e a compreensão de uma inteligência superior a nós.

Lembramos que uma prática espiritual deve ser transformadora, não rígida.

Os yamas incluem:

Ahimsa (não-violência): ter consideração e respeito por todos os seres vivos, sobretudo os que se encontram em piores condições do que nós. Somos amigáveis e reduzimos a raiva, medo, ódio e sentimentos, pensamentos ou acções de violência para todos os seres vivos à nossa volta. É o equivalente a ‘não matarás’. A um nível mais profundo significa que somos totalmente livres de qualquer grau de agressividade ou de violência, não temos qualquer inclinação para acções, pensamentos ou sentimentos agressivos ou que prejudiquem de alguma forma algum ser vivo. Assim, este valor implica que nos nossos corações e mentes só haja amor e liberdade.

Satya: ter apenas comunicações verdadeiras através das nossas palavras, escrita, gestos, sentimentos e acções. Inclui a capacidade de comunicar com sensibilidade, sem mentiras e com reflexão. No fundo, é  a honestidade, mas falando sempre a verdade de forma a que não magoemos ninguém. Quem consegue isto não pratica acções erradas.

Asteya: não cobiçar o que não é nosso. Desta forma, ganhamos a confiança de todos e podemos partilhar livremente. O não querer o que é dos outros refere-se não apenas a objectos, mas também a ideias, sonhos ou pensamentos.

Brahmacharya: moderação em todas as nossas acções. No seu melhor, é a moderação que dá a maior vitalidade ao indivíduo.

Aparigraha: não-ganância ou a capacidade de aceitar apenas o que é apropriado. O que não é ganancioso nem avarento, é seguro e confiante. É a capacidade de não estar sempre a saltar ansiosamente de desejo em desejo, sobretudo pelo que é dos outros.

Patanjali nota que ninguém domina, logo no início do seu caminho espiritual, estas atitudes na sua totalidade. Os obstáculos inerentes ao exercício de cada um deles vão tornando-se mais evidentes quando identificamos as razões pelas quais fazemos o seu oposto.

Quietude é acção

5 de Abril, 2020

 

Mesmo quando nada está a acontecer, algo está a acontecer. Este é um facto difícil para o ser humano entender, já que tanto venera o altar da produtividade e tão prontamente confunde a ocupação pela eficácia, e pela propulsão em direção ao progresso. O silêncio é uma forma de discurso, escreveu Susan Sontag, “e um elemento num diálogo.” A quietude é uma forma de acção e um elemento de avanço e de progresso.

Há certos momentos, como quando o inverno passa a primavera, em que a própria natureza nos lembra deste facto elementar e escorregadio: os botões começam a desenhar as esqueléticas silhuetas das árvores, retendo folha e flor até que seja o momento certo, até que seja seguro derramar nova vida no ar frio exterior.

Há também certos momentos na cultura em que devemos lembrar, especialmente, para nos mantermos sãos, este facto elementar escorregadio.

O escritor Tocqueville dizia que:

“Pensamos que eles estão parados, mas na verdade o que se passa é que o seu progresso escapa à nossa observação, pois aqueles que caminham parecem estar parados para aqueles que correm”

Porque essa quietude transformadora é tão imperceptível, observa Tocqueville, e porque aparece após períodos de turbulência, normalmente confundimos a quietude com um ponto final. Quase dois séculos antes do psicólogo Daniel Gilbert concluir que “os seres humanos são trabalhos em andamento que pensam erroneamente que estão acabados”, na sua excelente investigação sobre como as nossas ilusões actuais dificultam a nossa felicidade futura, Tocqueville admoesta contra essa ilusão de finalidade, tão verdadeira na escala dos indivíduos como é na escala de sociedades, nações e civilizações.

Algumas sugestões para cultivar essa quietude essencial:

Procure a companhia de pessoas que admire (contacte com elas tanto quanto puder)´

Adicione experiência e experimentação sobre essa mistura.

Não vire costas a situações difíceis.

Aceite desafios.

Familiarize-se com o que não é familiar – a sua mente, por exemplo. É assim que amplia a sua visão e perspectiva.

Lide com grandes questões. Lide com grandes ideias. Trate o seu cérebro como um músculo.

Não confunda a busca por sabedoria com um scroll de fotografias de praias paradisiacas e de gatinhos fofos.

Olhe honestamente para o que não sabe.

Não alimente inseguranças. Não alimente ilusões de grandezas. Ambos sáo obstáculos à quietude.

Seja confidante. Merece isso.

Slow is smooth. Smooth is fast. Como sugeria Marco Aurélio: “Pergunte a si mesmo a todo o momento: ‘Isto é necessário?’”

 

(English version)

 

Even when nothing is happening, something is happening. This is a difficult fact for the human animal to fathom — especially for us modern sapiens, who so ardently worship at the altar of productivity and so readily mistake busyness for effectiveness, for propulsion toward progress. Silence is a form of speech, Susan Sontag wrote, “and an element in a dialogue.” Stillness is a form of action and an element in advancement, in evolution, in all forward motion.

There are certain moments, as when winter cusps into spring, when nature itself reminds us of this slippery elemental fact: Buds begin to spine the skeletal silhouettes of trees, withholding leaf and blossom until it is right, until it is safe to spill new life into the chilly air;

Because this transformative stillness is so imperceptible, Tocqueville observes, and because it appears after periods of upheaval, we are apt to mistake the stillness for an end point. Nearly two centuries before psychologist Daniel Gilbert quipped that “human beings are works in progress that mistakenly think they’re finished” in his excellent inquiry into how our present illusions hinder our future happiness, Tocqueville admonishes against this illusion of finality, as true on the scale of individuals as it is on the scale of societies, nations, and civilizations

“There are certain epochs in which the changes that take place in the social and political constitution of nations are so slow and imperceptible that [people] imagine they have reached a final state; and the human mind, believing itself to be firmly based upon sure foundations, does not extend its researches beyond a certain horizon.

The great gift of such periods is that they invite us to question our certitudes, our givens, these seemingly sure foundations that have lulled us into complacency — for it is only by being jolted out of our complacencies, cultural or personal, that we ever reach beyond the horizon, toward new territories of truth, beauty, and flourishing.

“We imagine them to be stationary only when their progress escapes our observation, as [people] who are walking seem to be standing still to those who run”.

 

Papel higiénico e yoga?

17 de Março, 2020

Há coisas que ninguém percebe, não é? Como essa coisa do papel higiénico a desaparecer  em alturas de crise.

Bom, a verdade é que sentimentos de pânico afectam o nosso primeiro chakra ou centro de força, que é precisamente o responsável pela nossa sensação de segurança e estabilidade. Este chakra está situado na base da coluna. Claro que isto é mais simbólico do que outra coisa, mas se pensarem naquela coisa de ‘borboletas na barriga’, ‘friozinho na barriga’ e ‘dar a volta à tripa’, talvez o Ayurveda não esteja asism tão enganado… Quando o medo toma conta dessa zona do corpo, sentimo-nos como se nos puxassem o tapete por debaixo dos pés….de repente, parece que anda tudo no ar, não nos sentimos enraizados, sem âncora e acabamos por viver quase inteiramente nas nossas mentes.

O que precisamos é de voltar a reconectar com o nosso corpo. Ficar em casa, praticar yoga e esquecer o papel higiénico.

Por isso, já percebem porque não sou nada fã de aulas de yoga online.

Uma maneira inteligente e simples de começar o dia conscientemente. Sintonize com as sensações do seu corpo e respiração, para que possa permanecer conectado durante o resto do dia. Pode usar um bolster, um cobertor ou um bloco para se sentar de forma mais confortável. Só não vale fazer deitado na cama à espera do snooze 🙂

E mais uma prática rápida também.

Uma sequência acessível a todos.

 

Everyday Life Yoga Portrait by SARA CORREIA

Caso sejam dos que não vão deixar de utilizar as redes sociais nesta altura, vou deixar aqui algumas sequências acompanhadas de aspectos que me parecem bem mais importantes a ter em conta.

Uma delas é a disciplina do nosso discurso. Isso pode ser feito quando publicamos nas redes sociais, mas também em casa, agora que estamos ‘obrigados’ a estar mais tempo em família e já se sabe que isso, por vezes, traz alguns arrufos e exaltações.

Na Bhagavad Gita, no verso 15 do capítulo XVII, Kṛṣṇa indica quatro princípios a serem observados quanto à palavra: “Discurso que não cause agitação, que seja verdadeiro, agradável e benéfico (…)”.

Desde sempre considerei a disciplina da palavra uma das mais importantes disciplinas que qualquer pessoa deve seguir. E no mundo do yoga, muito preocupado em transmitir visões religiosas ou Verdades e discursos de auto-ajuda, muitas vezes esquece-se desta disciplina que tem o nome de Vak tapas.

E considero-a importante, desde logo, porque faz-nos estar constantemente alerta e presentes em cada momento do nosso dia. A vigiar, como alguém há muitos séculos nos aconselhou.

Então, os 4 princípios a serem observados em vak tapas, quanto ao uso da palavra são:

  1. Anudvegakaram, ahiṁsā ao nível da palavra é o primeiro aspecto; ser atento e cuidadoso na forma de nos expressarmos para que as palavras não magoem ou agridam ninguém. Isso, só por si, exige estar atento para perceber a tendência que haja em nós para a crítica, para a culpabilização e para o falar mal de ou denegrir. Por exemplo, vejo muitos a criticar atitudes de pessoas hoje em dia que não respeitam as directrizes das autoridades, mas lembremos que ninguém estava preparado para o que está a acontecer. O mundo ocidental é um mimado, acha-se, historicamente, superior e que nunca nada lhe vai acontecer. Nem com o holocausto aprendemos, ou aprendemos muito pouco, por isso, não vale a pena criticar ninguém e sim, pensar que cada um faz o melhor que consegue e sabe a cada momento. Não usemos a palavra para disputar, deprimir, envergonhar, criticar, acusar, ferir ou maldizer.
  2. Satyam, ser verdadeiro. Lembremos que o início de todas as hecatombes no Planeta está, quase sempre, no uso da língua. Ainda que a fala tenha função edificante, normalmente usamo-la para cogitações pequenas e de subterfúgio. As grandes tragédias sociais e individuais nascem da conversação de sentimentos inferiores. Não importa apenas falar, mas verificar o que damos com as nossas palavras. Porque transmitimos estados de alma com as nossas palavras. Se tivermos verdade em nós, o nosso discurso também a terá. Se formos autênticos, as nossas palavras também serão.E se não formos verdadeiros connosco, com os que nos rodeiam e no plano relativo em que nos movemos, também mais dificil será percebermos a Verdade do que somos. Sermos verdadeiros nas palavras que dizemos a nós e aos outros também nos leva a menos agitações na mente.
    3. Priyam, o discurso deve ser agradável. “A Lingua também é um fogo” (Tiago, 3:6). O nosso discurso deve ser agradável e amoroso no tom e na expressão. O diálogo é o que nos expõe o mundo íntimo.
    4. Hitam, bom e benéfico para o ouvinte. Também na palavra não devemos pensar só no que nos serve a nós, e ao que achamos, mas também tentar perceber se o que vamos dizer é benéfico para quem nos ouve.

Do ásana

Tadasana paschima namaskar é um simples, mas avançado estiramento do ombro e tórax praticado a partir de uma posição em pé. O nome vem do sânscrito, tadasana, ou postura da montanha; paschima, que significa “oeste/ocidente”, referindo-se à parte de trás do corpo; e namaskar, que é uma saudação e termo de respeito.

Como o nome sugere, tadasana paschima namaskar é uma variação de tadasana, mas com as palmas das mãos juntas no centro das costas numa uma posição de prece e respeito.

Porque há simbolismos que nos fazem pensar.

Uma sequência de hatha yoga

Desenhos por Carlos Garrido