“Provai-vos a vós mesmos”

10 de Agosto, 2020

“Vá anda, tens aqui um cãozinho para te animar”. Eu acelerei o passo e no fim da subida lá estava o farrusco que se deita de barriga para cima assim que me aproximo dele para lhe dar festas. O amigo que me  acompanhava sabia (por já me conhecer há muitos anos), que se há coisa que me poderia fazer esquecer o cansaço nas pernas, o calor e a fome, é um cão. Até porque o fim do trilho ainda estava, nesse momento da caminhada, longe, ao contrário das previsões do google maps que nos haviam dado falsas expectativas.

A ideia era fazer um trilho tranquilo, apenas 15km sem grandes subidas, segundo nos haviam dito. Por isso, demo-nos ao luxo de aproveitar (e desperdiçar muito tempo na primeira metade do trilho) parando algumas vezes, tirando fotos, mergulhando nas cascatas geladas que íamos encontrando e, no meu caso, abraçando imensas árvores pelas quais me apaixonei pelo caminho. E eu, apesar de já não o ser, cometi o erro de principiante: subestimei o caminho e achei que conseguiria fazer o trilho em poucas horas e que não valeria a pena levar comida.

Mas a meio do caminho, quando saímos da zona dos rios, esperava-nos um deserto sempre a subir, abrindo uma segunda etapa do bem diferente da primeira, só com subidas longas, intercaladas de algumas descidas de fazer chorar os joelhos. Depois dessa primeira subida interminável e em terreno árido, a fome veio em força e as pernas começaram a queixar-se. E ainda faltavam mais 3 horas de caminhada.

O meu amigo ainda tentou oferecer-me a comida dele, mas ele não é vegetariano. “Ah, comes a minha sandes. Eu tiro o fiambre e o queijo”. “-Não, guarda a sandes, se não a comes, encontramos sempre pelo caminho um cão que a coma”.

Nessa parte final, a sentir-me literalmente a usar as reservas de energia de backup, comecei a pensar no erro que tinhamos cometido ao ter perdido tanto tempo no início do caminho. Deu para desfrutar da parte mais bonita do trilho, mas fez com que o final acabasse por ser mais duro do que tinhamos previsto.

Quantas vezes isto não acontece na vida e na prática de yoga?

Vejo isso a acontecer muito naquelas pessoas que ‘vão para o yoga’ porque querem relaxar, e pelas mil e uma maravilhas que, hoje em dia, se prometem a propósito da prática de yoga. Querem os benefícios rapidamente, mas quando se apercebem de que afinal o processo implica muito mais do que uma musica relaxante, palavras bonitas e roupa fitness xpto, recuam. Quando percebem que, afinal, o verdadeiro processo de yoga é uma transformação completa daquele que não se limita a ficar pela rama das posturas e que o que está em causa na prática de yoga é a disciplina dos sentidos, um movimento de consciência, de treino de nós mesmos e não apenas do corpo no sentido de permanecermos com a experiência em vez de fugirmos dela. Porque quando escolhemos mantermo-nos na prática apesar dos altos e baixos de energia e nas nossas vidas, estamos activamente a escolher focar a nossa atenção e consciência naquela parte de nós que não muda. Como diz Donna Fahri, quando nos sentimos tristes, praticamos, quando estamos felizes, praticamos, quando estamos cansados praticamos, quando estamos enrolados nas teias do luto, praticamos; não praticamos para nos livrarmos de sentimentos ou para suprimi-los. Praticamos para que tudo possa fluir em nós.

Tal como no trilho de ontem, quando a mente cedia ao cansaço das pernas e à fome, o corpo acelerava o passo e tentava correr para terminar aqueles quilómetros mais depressa, mas a prática de yoga surgia e eu abrandava o passo, voltando ao ritmo certo sem querer abreviar ou fugir daquela lição que aquele terreno árido me estava a dar.  “Examinai-vos a vós mesmos; se permaneceis na fé, provai-vos a vós mesmos”, nas palavras de Paulo de Tarso.

O domínio de um ásana (postura de yoga) é a completude de tarefa atrás de tarefa, depois vem a permanência, a superação do desafio, e a observação alinhada da mente e corpo. Assim, também no hiking ou caminhada em trilhos.

Iyengar dizia que independentemente do motivo por que se começa a praticar yoga, mesmo nos ásanas mais simples experimentamos 3 níveis de busca ou inquirição: “a inquirição externa que traz firmeza ao corpo, a inquirição interna que traz consistência e quietude à inteligência, e a inquirição íntima que traz benevolência ao espírito”.

Se cultivarmos bem estas etapas, aprendemos a nunca subestimar nenhum início de caminho na nossa vida e não cairmos na ilusão da expectativa de um fim rápido e indolor. Num trilho ou no tapete, a pratica é de pequenas acções e movimentos, negociações com o nosso «eu» e com o corpo, contestações dentro de nós (corpo-mente-prática); são um processo dialéctico que levam a uma fusão com a condição primária da nossa existência.

 

 

Perseverança e fadiga

4 de Agosto, 2020

 

Desde o início do confinamento, recebi muitas mensagens de pessoas com dificuldade em acompanhar tudo o que se está a passar e em manter o controlo das suas ansiedades.  Para alguns, parece que é simplesmente demasiado para se lidar. Mas, é claro, “a imensidão de tudo o que se passou” é demais para qualquer um, especialmente por si mesmo.  Por isso, não precisas sentir nenhum stress adicional ou culpa por te sentires sobrecarregado, mesmo quando possas estar a entrar em férias. A julgar por algumas das mensagens, parece-me que a fadiga da vigilância está a tornar-se um problema real, acrescentada da fadiga digital.  Ou seja, talvez sintas que as coisas têm sido stressantes e desafiadoras por tanto tempo que já não podes mais manter a tua vigilância sobre distanciamento social, lavagem das mãos, uso de máscaras etc?  Afinal, só temos quantidades finitas de energia nas nossas reservas.  Ou talvez sintas que, porque nem tu nem ninguém no teu círculo imediato foi afectado pelo vírus durante todo esse tempo, toda a confusão parece exagerada?  Ou seja, a tua resposta pessoal de fuga ou luta está a enfraquecer, e com ela murcham a tua energia e senso de urgência.

Seja qual for o teu caso, pode ser reconfortante saber que é completamente natural ficar cansado.  Não há necessidade de colocar camadas extra de sofrimento, julgando-se por estar cansado.  Isso não mostra que és fraco; isso mostra que és humano.  Lembra-te: a prática da atenção plena não deve erradicar toda a nossa dor, mas sim libertar-nos do sofrimento que infligimos a nós mesmos e aos outros como resposta a essa dor inevitável.   Uma vez que podemos aceitar isso, a próxima pergunta torna-se muito mais útil e saudável: o que posso fazer para me sustentar (e aqueles ao meu redor), dado o quão cansado eu inevitavelmente me tornei?

Em tempos de dificuldade e fadiga, pode-se recorrer ao poderoso conceito de viriya (perseverança).  Como uma das chamadas “seis perfeições”, viriya é um conceito rico.  Chama a nossa atenção para a energia, determinação e diligência envolvidas no cultivo do bem-estar.  Ou seja, lembra-nos que o engajamento em actividades saudáveis requer esforço (ou seja, é trabalho), mas que esse esforço é revigorante porque é autêntico e fiel à nossa natureza.  Dessa forma, viriya ajuda-nos a entender a diferença entre preguiça e descanso, entre dormitar e meditar, entre desistir e se reagrupar. Então, o que isso significa para nós nestes tempos desafiadores e exaustivos? Bem, primeiro, significa que podemos e devemos ser gentis connosco mesmos quando nos sentimos cansados e exaustos, quando sentimos vontade de desistir.  É completamente compreensível e natural que possamos sentir-nos assim. Em segundo lugar, significa que devemos fazer uso dessa valiosa visão sobre o nosso estado de esgotamento como uma oportunidade para reflectir sobre o que podemos fazer para cuidar de nós mesmos (e dos outros), dado que as nossas energias e estão em baixa. Terceiro, significa que devemos proteger-nos contra cair nos braços da preguiça e desleixo (tanto físicos como mentais), que são falsos amigos de compaixão.  Nota que dando tão pouco, recebemos pouco em troca.  Podemos querer acreditar que cair no sofá à frente da TV com uma cerveja far-nosá sentir mais capazes de enfrentar o mundo, mas não, pelo menos não por muito tempo. Em quarto lugar, isso não significa que não devemos relaxar – é claro que devemos!  No entanto, pode significar que as actividades de preguiça e desleixo (às vezes partes muito bem-vindas do nosso dia) não devem tornar-se um padrão ou rotina, apesar de quão tentadoras elas podem ser durante os momentos de fadiga.  É improvável que sejam a resposta certa para a pergunta: o que posso fazer para me sustentar (e aqueles ao meu redor), dado o quão cansado eu inevitavelmente me tornei?  Em vez disso, a resposta certa provavelmente envolverá algum esforço, mas deve ser um esforço que é adequadamente direccionado para o teu bem-estar.  Considera a hipótese de teres mais energia do que pensas, mas que ela simplesmente está obscurecida pelas complexidades emocionais e preocupações dos nossos tempos desafiadores. Assim, a tua resposta à pergunta (o que posso fazer para sustentar a mim e aos outros?) pode ser mais esforçada.  Por exemplo, podes ter desistido da tua meditação regular de 20 minutos sentado todas as noites depois de algumas semanas em troca de uma taça extra de vinho?  Ou talvez as tuas tentativas de fazer uso da caminhada até ao metro para um exercício de atenção plena foram substituídas usando essa caminhada para verificar o teu telefone e ensaiar queixas sobre colegas e amigos dentro da tua cabeça?

Um ponto-chave sobre perseverança (viriya) é que ela não existe para nos esgotar e nos levar além dos nossos limites. Isto não é uma negação trágica e heróica de ti mesmo. Não é um convite para te julgares duramente. Em vez disso, viriya convida-nos a reflectir honestamente sobre as nossas capacidades a cada momento, e fazer o que pudermos nesses momentos para a nossa saúde e  bem-estar. Isso significa que precisamos reconhecer quando cair no sofá é bom para nós e quando é simplesmente preguiça rotineira obscurecendo o que poderíamos fazer melhor por nós mesmos (dado os níveis de energia que temos). Esse tipo de honestidade connosco pode ser um desafio em si mesmo, mas aceitá-lo é uma maneira de cuidar de nós mesmos com integridade e sabedoria.

(English)

I have received many messages from people struggling to keep track of things, and then also struggling to keep track of their anxieties and stress about those things.  For some, the immensity of everything feels like it is too much to cope with.

But, of course, ‘the immensity of everything’ IS too much for anyone to cope with, especially on their own.  You need feel no additional stress or guilt about feeling overwhelmed.

Judging by some of your messages, it seems to me that vigilance fatigue is becoming a real issue.  That is, perhaps you feel that things have been stressful and challenging for so long that you can no longer maintain your vigilance about social distancing, hand washing, mask wearing etc?  After all, we only having finite amounts of energy in our reserves.  Or perhaps you feel that, because neither you nor anyone in your immediate circle has been afflicted by the virus itself during this whole time, all of the fuss seems exaggerated or overblown?  That is, your personal fight-flight response is shutting down, and with it withers your energy and sense of urgency.

Whatever the case for you, it may be reassuring to know that it is completely natural to get tired.  As we’ve seen so many times in our course, there is no need to layer on extra suffering by judging yourself for being tired.  It doesn’t show that you’re weak; it shows that you’re human.  Remember, the practice of mindfulness is not supposed to eradicate all our pain, but rather to free us from the suffering that we inflict on ourselves and others in response to that unavoidable pain.   Once we can accept that, the next question becomes much more helpful and healthy: what can I do to support myself (and those around me), given how tired I have inevitably become?

At times of difficulty and fatigue, one might turn to the powerful concept of viriya (perseverance).  So, I’d like to spend a moment on it today, if you’ll indulge me.

As one of the so-called ‘six perfections,’ viriya is a rich concept.  It calls our attention to the energy, resolve, and diligence involved in the cultivation of well-being.  That is, it reminds us that engaging in wholesome, healthy activities takes effort (ie. it’s work), but that such effort is itself invigorating because it is authentic and true to our natures.  In this way, viriya helps us to understand the difference between laziness and rest, between dozing and meditating, between giving up and regrouping.

So, what does this mean for us in these challenging and exhausting times?

Well, first, I think it means that we can and should be gentle with ourselves when we feel tired and exhausted, when we feel like giving up.  It’s completely understandable and natural that we might feel that way at the moment.

Second, it means that we should make use of this valuable insight into our depleted state of being as an occasion to reflect on what we can do to look after ourselves (and others), given that our energies and spirits are low.

Third, it means that we should guard against lapsing into the arms of the tempting but false friends of compassion (sloth and laziness), which entice us into their embrace by allowing us a period of effortlessness.  However, by giving so little, we get little in return.  We might want to believe that slumping onto the couch in front of the TV with a beer will make us feel better able to face the world, but the chances are it will not, at least not for long.  We might want to believe that not bothering to find our face mask before leaving the house will feel liberating and light, but the chances are it will not.

Fourth, this does not mean that we should not relax – of course we should!  However, it might mean that the activities of sloth and laziness (sometimes very welcome parts of our day) should not become our default or routine, despite how tempting they might be during times of fatigue.  They are unlikely to be the right answer to the question: what can I do to support myself (and those around me), given how tired I have inevitably become? Instead, the right answer is likely to involve some effort, but it should be effort that is properly directed towards your well-being.  If you know your energy levels are low, this might mean some very small things.

Of course, if your insight into yourself reveals that you have more energy resources than you thought, but that they have simply been obscured by the emotional complexities and concerns of our challenging times, you might also consider whether your answer to the question (what can I do to support myself and others?) can be more effortful.  For instance, you might have given up your regular 30 minute sitting meditation each evening after a few weeks in exchange for an extra glass of wine?  Or perhaps your attempts to make use of the walk to the bus-stop for a mindfulness exercise have been replaced using that walk to check your phone and rehearse your grievances about your colleagues in your head?  If you have the energy, how would it be if you reverted to a 30 minute sit or a mindful walk?

A key point here with viriya is that it doesn’t call on us to deplete ourselves by pushing ourselves beyond our limits.  This is not a tragic-heroic denial of self.  It is not an invitation to judge ourselves harshly.  Rather, viriya calls on us to reflect honestly on our capacities and abilities at any given moment, and to do what we can in those moments to spend them in support of wholesomeness and well-being.  This means that we need to recognise when flopping onto the couch is good for us and when it’s simply routined laziness obscuring what we might better do for ourselves (given the energy levels we have).  This kind of honesty with ourselves can be challenging in itself, but accepting it is a way to look after ourselves with integrity and wisdom.

 

 

Medo e invertidas

24 de Julho, 2020

 

Compreensão e repetição são as soluções definitivas para qualquer medo

 

“Filipa. Sirsasana no meio da sala”. Até hoje recordo o terror com que ouvi esta frase da minha professora de Iyengar yoga, 1 ano depois de andar a tentar subir as pernas para a parede e a fazer a postura apenas com esse suporte.

Já não me lembro se caí ou não dessa primeira vez em que me afastei da parede. Mas lembro-me de duas coisas muito claramente: 1) as reações mentais nos segundos em que caminhei da parede para o meio da sala (e já lá vão 10 anos); 2) de que todo esse processo foi preciso para que hoje eu consiga subir, estar e ensinar essa postura com toda a segurança e compreensão sobre a interacção mente-corpo, mente-ásana.

O medo é um produto da mente que é manifesto e revelado no ásana. Em muitas posturas, mas no sirsasana e em invertidas sobre a cabeça em particular. É uma postura que toca em muitas barreiras em nós. É o início de uma viagem.

Já escrevi algumas vezes sobre o medo na prática de yoga e na forma como podemos lidar com ele. Uma coisa comum em todos os medos é que ele só surge quando a nossa compreensão da relação que nos suscita medo não é completa. Tenho medo de uma postura de yoga quando ainda não compreendo a minha relação com ela, tenho medo do amor quando ainda não o compreendo, tenho medo de uma relação inesperada quando ainda não a compreendo. Essa relação não é só entre nós e a natureza , entre nós e aquilo que possuímos, entre nós e ideias. Se essa relação não é compreendida inteiramente, há medo. Porque viver é relação.

Ser é estar em relação. Na prática, não fazemos posturas, somos posturas. Fundimo-nos com a postura. O medo só existe em relação a algo, não é uma coisa abstracta.

Como é que nos libertamos do medo?

Como em qualquer relação, aquilo que é conquistado tem de voltar a sê-lo várias vezes. Nenhum problema é vencido de uma só vez; ele pode ser compreendido mas não conquistado. Conquistar só leva a mais resistência, mais confusão, agitação e a mais medo. Resistir, dominar, guerrear com uma postura (no tapete) ou com um problema (na vida) só vai criar mais conflito. Se pudermos explorar o medo, entrar nele passo a passo, explorar o seu conteúdo, então esse medo vai passar de vez.

Na vida, acima de tudo, temos medo de não virmos a ser aquilo que projectámos ou sonhámos. Quando há medo de não virmos a ser, do desconhecido (como uma invertida), da morte, será que podemos vencer esse medo pela determinação? Esta fará parte do processo, sem dúvida. Mas é preciso perceber que a repressão, a sublimação ou substituição só vão gerar mais resistência. O medo não se vence pela resistência ou defesa, nem nos libertamos dele através de uma busca por uma resposta ou explicação verbal.

De que é que temos medo? Temos realmente medo da invertida ou das ideias que associamos a essa postura? Temos medo do facto ou da ideia? Temos medo de uma coisa tal como ela é ou daquilo que pensamos que essa coisa é? O facto é uma coisa, a ideia acerca do facto é outra. Temos de perceber se temos medo da palavra, do facto ou da ideia.

Só temos medo quando não existe comunhão com aquilo que receamos. Se tenho medo da solidão, p.ex., é porque não estive nunca em completa comunhão com essa solidão. No momento em que nos abrimos à compreensão do que é a solidão, então, podemos compreender o que ela é.

É a minha opinião, a minha ideia, a minha experiência, o meu conhecimento acerca do facto que gera o medo. Portanto, é a mente que cria o medo, sendo a mente o processo de pensar. Pensamento é energia e verbalização. Ficamos libertos do medo apenas quando há auto-conhecimento, quando nos libertamos desse processo de atribuição de nomes, de projecção de símbolos, de imagens. O autoconhecimento é o início da sabedoria e de uma vida sem medo.

Veja aqui um tutorial escrito sobre como fazer esta postura (depois de já se ter treinado muito na parede):

The word ‘hurt’ opens up a can of worms.
Does ‘hurt’ mean pain, and if so to what degree.
Does ‘hurt’ mean discomfort?
Does ‘hurt’ mean ‘this is bad and I am going to do damage’

What ‘hurt’ means for one person is different for another. And that is a tricky task for the teacher until we understand what ‘hurt’ mens to the student.

I have never understood Yoga to be pleasant and easy. I am OK with experiencing discomfort even pain when practicing, but this comes with a sharp radar for understnading if the pain is good or bad.

We learn this in yoga, to dicern if it is something we should sustain or surrender.This is also what we are learning in life, right?How we respond in the asana helps us to better respond to challenges in life.

So to conclude, if a student says ‘it hurts’ or if you are in an asana and feel pain I ask myself the following questions.

  1. Is this good pain or bad pain. Good pain is usually a stretch, release and while it is intense it brings relief afterwards. Bad pain is usually sharp, acute and or felt in the joints.
  2. If it is good pain obsserve it, notice it, sustain it and then release and again observe, what can you learn from it.
  3. If it’s bad pain ask your teacher or self what can do to shift this, perhaps a small action is required to shift it or perhaps you need to come out and not do the poses.


Only the student can know the answers and that is part of the journey as a practitioner. Learning to listen inwards and respond with skilful action.

Let me finish with ‘Ahimsa’ Non violence, one of the five yamas to observe and practice.

Never stray from the yamas and niyamas and if in doubt about something return to them and they will guide you.

Salamba Sirsasana I

1 de Junho, 2020

Salamba simgnifica suporte. Sirsa significa cabeça. Esta é a postura invertida sobre a cabeça, uma das principais posturas de yoga, considerado até como o rei dos ásanas. É uma postura fundamental e apresenta diversas variações, conhecidas como o ciclo de sirsasana (mais frequentemente praticado no estilo iyengar). Vamos aqui – recriando o esquema apresentado no livro Light on Yoga, de B. K. S. Iyengar, apresentar a sequência para entrar na postura para quem está a iniciar a sua prática. Toda esta sequência pode ser feita com o apoio da parede. Não deve tentar fazer esta postura pela primeira vez sem o acompanhamento presencial de um professor qualificado.

Este esquema visa apenas ajudar à prática pessoal de quem tem uma prática regular com acompanhamento de professor.

1 &2. Pouse os antebraços ou os cotovelos no tapete à distância dos ombros. A distância entre os cotovelos não deve ser maior do que a dos ombros.

2. Entrelace os dedos de forma a que as palmas das mãos formem uma concha. Quando subir para o equilíbrio, os dedos devem manter-se firmemente entrelaçados. Se estiverem moles, o peso do cropo cai sobre eles, fazendo os braços arquearem.

3. Pouse a coroa da cabeça no chão de forma a que a nuca encaixe na concha das palmas das mãos. Não pouse nem a testa nem a nuca no chão. Para isto, aproxime os joelhos da cabeça. Depois de assegurar a posição da cabeça, eleve os joelhos do chão ao caminhar com os pés em direcção à cabeça.

4. Expire e, com a força do abdominal, suba as pernas do chão com os joelhos dobrados. Faça essa elevação de tal forma que os dois pés saiam do chão ao mesmo tempo. Quando isto estiver garantido, avance para as fases seguintes (fotos 5, 6, 7 e 8).

9 & 10. Estique as pernas e equilibre-se sobre a cabeça, mantendo todo o corpo perpendicular ao chão (vista lateral – 9; vista frontal- 10).

Note que este asana não é para relaxar em equilíbrio sobre a cabeça. Esta é uma postura que exige força e resistência para elevação dos ombros e da parte superior das costas de forma a permitir um alongamento da coluna, também na região lombar, por um tempo considerável.

Tente criar a acção de afastar os cotovelos – sem efectivamente o fazer – para que os ombros se abram e para activar o grande dorsal, trazendo mais estabilidade à postura.

Repare que o pescoço deve estar longo, tal como em tadasana. Para isso, pressione o topo da cabeça contra o chão, o que cria uma sensação de leveza e alivia a pressão sobre o pescoço. O peso nunca deve ir para a cabeça, mas sim ser suportado pelos braços. Prefira menos tempo de permanência na postura com mais qualidade.

Atente na verticalidade do corpo (mais uma vez tenha tadasana como referência) e contraia o grande glúteo e adutores (juntando os joelhos) para não colapsar na lombar e active abdmomens e psoas.

Advertência: Praticantes com problemas na coluna cervical não devem fazer este ásana. O mesmo para quem  tem tensão alta (sem estar medicado) e quem tem problemas de coração.

Benefícios:

Melhora a circulação sanguínea no cérebro, tendo um efeito rejuvenescedor. É tonificante para quem sente sempre ‘ a cabeça cansada’. Garante um aporte de sangue adequado às glândulas pituitária e pineal, essenciais para a saúde e vitalidade do corpo.

Pessoas com insónia, perda de memória e vitalidade beneficiam da correcta prática desta postura.

Robustece os pulmões, disciplina a mente.

Sirsasana counteracts tiredness, improves concentration and boosts self confidence. When practiced correctly, headstand oxygenates the brain. It can also help those with memory loss.

Other benefits: helps those with arthritis of the lower back, dorsal region, and shoulder joints. It also reduces lumbago, sciatica, and general backache. Sirsasana works on the legs; any experienced yoga practitioner who has had the misfortune of spraining a knee or an ankle knows how effective this pose is at bringing down a swelling or inflammation in these joints. Varicose veins and coccyx pain and displacement can also be dealt with.

Diseases of the respiratory system, lungs and heart such as palpitations, asthma, breathlessness, bronchitis, nasal catarrh, chills, cold and cough, and (after medical treatment and rest) pleurisy and pneumonia, can all be brought to vibrant good health through regular practice of this pose.

This pose also brings relief for those suffering from digestive problems; constipation, acidity, colic and colitis can all be ameliorated with this and other poses. It can also boost low blood pressure. Other conditions that greatly benefit from Sirsasana are diabetes, displaced uterus, epilepsy, umbilical hernia, inguinal hernia, impotency, anemia, appendicitis, insomnia, kidney problems, menstrual disorders, prostrate problems, tonsillitis and duodenal ulcer.

Fonte: Light On Yoga, B. K. S. Iyengar

Respirar nas relações

27 de Maio, 2020

 

A admiração é o oxigénio do desejo e do amor a dois. O amor maduro incentiva, estimula, promove e partilha a alegria do crescimento do outro e das suas realizações. ⁣⁣
⁣⁣
Saber admirar é uma arte que só desenvolvem aqueles que constróem autoestimas seguras e não precisam de diminuir o outro para se engrandecer nem ignorar os feitos e virtudes alheias para esconder a sua inveja e sensação de pequenez. ⁣⁣
⁣⁣
Quem se sustenta no reconhecimento das próprias capacidades, auto-referenciado, deseja que o outro faça brilhar cada vez mais a sua luz e voe o mais alto que desejar e puder. Quando é assim, o amor torna-se uma dança de estímulos e conquistas, pessoais e a dois, num crescimento contínuo. ⁣⁣

Aceitação

Nas aulas da Gita, temos falado muito deste valor: aceitação.

Aceitar-se a si e ao outro é libertador. Só o que é imperfeito evolui e cresce. ⁣

Longe de ser uma especialista no assunto e baseando-me na observação atenta dos que me rodeia, para que uma relação de casal resulte devemos permitir ao outro alguns ‘pecados’.
O perfeccionismo e a postura infantil de exigência destróem os brotos promissores de amores possíveis. ⁣

A relação nasce da atracção, sustenta-se na admiração e frutifica na alegria da partilha de objectivos e sonhos comuns, na complementaridade das imperfeições e das potencialidades. ⁣

A relação a dois é feita muito mais de ajustes do que de acordos. É no balanço da viagem, sobre as pedras dos desafios, que as arestas se aparam e os que amam se acomodam ao real e ao possível, com maior conforto. ⁣Um relacionamento afectivo aprofunda-se quando o casal mergulha na entrega e na relação. Inicialmente, cada um mergulha na sua própria história, idealizações, carências e virtudes, para se consciencializar e conectar à força que vem da sua própria família, de dentro de si mesmo.Depois, juntos, mergulham na aprendizagem e na arte de oferecer ao outro o melhor de cada momento e de receber o melhor que o outro possa e queira oferecer. Lado a lado, um passo de cada vez, constróem aquilo que seja possível, dentro dos seus sonhos, superando obstáculos, vencendo desafios e aprofundando sempre a descoberta de si mesmos e do outro na intimidade e nas construções transformadoras da partilha e do amor a dois. ⁣⁣

Quem aprende a rir de si mesmo com leveza também aprende a encantar-se com o outro, com compaixão e respeito. Aí o amor floresce. ⁣

(Lembrete: um casamento perfeito é aquele em que duas pessoas imperfeitas se recusam a desistir uma da outra)

Como dormimos? De que lado dorme? Qual o lado em que se sente mais desconfortável? Deita-se sobre a barriga ou de costas? Como é que ficam posicionados os seus membros? Observe o lado para que tende a dormir e vá tentando mudar para o outro. Observe se a sua posição de dormir traz compressão ou descompressão na coluna.

O seu colchão é duro ou macio? O colchão deve ser firme e sem ondulações. Observe a altura e qualidade da almofada. Consulte um terapeuta para encontrar os melhores suportes para dormir.

Pensamentos

Escolher um circuito neural mais saudável dos nossos hábitos mais intrincados, incluindo os pensamentos, é possível através de uma prática consistente. Por exemplo, que tipo de pensamentos tem quando se sente mais cansado ou quando se depara com um obstáculo? A coluna fica mais assimétrica quando isso acontece? Tente sentir quando a coluna colapsa, quando se inclina, ou fica instável. Como é que isso se reflecte ao nível do corpo, das emoções, e da mente? Estes colapsos e inclinações na coluna alteram os canais energéticos internos e criam desequilíbrios. Quando der por si a ter padrões de pensamento mais perturbados, trabalhe o princípio de yoga de cultivar e evocar o pensamento oposto. Por um pensamento negativo substitua por um positivo.

Observar as nossas tendências em direcção a mais saúde começa com a observação que leva a uma maior consciência para que novos e melhores hábitos possam ser criados.

 

A pélvis é o ponto a ter em atenção quando estamos sentados. Observe como se senta. De que lado da pélvis coloca mais peso? Mude para o outro lado. Está sentada sobre o sacro e a arredondar as costas? Para que lado tende o seu tronco a inclinar-se? Incline-se para o outro. Onde está a direcção rotacional de cada lado? Rode para o outro lado. Uma correcta distribuição do peso e a correcção da pélvis depende da natureza da escoliose, da curvatura lombar ou da compensação que se faz em cada postura.

Como é que os pés apoiam  no chão? Os pés devem apoiar afastados à distância da bacia, com a frebte do joelho a apontar para a frente e sobre a articulação do tornozelo. Se for mais confortável, experimente sentar-se sobre um suporte que eleve a pélvis, relaxando mais a virilha. Verifique que o peso está igulamente distribuído entre os dois pés, e de forma equilibrada entre o cutelo externo e o arco do pé. Certifique-se que o pé não supina (a rodar para fora) ou que um pé não vai para a frente do outro. Os pés reflectem a assimetria da coluna. Por exemplo, fixar ambos os pés com uma pressão extra no pé direito vai ajudar a contrabalançar uma escoliose lombar com curvatura para a esquerda. Os rotadores externos da anca estabilizam a pélvis. Não cruze as pernas. Cruzar as pernas é, geralmente, um reflexo da curvatura lombar e da rotação pélvica. Pode também inibir este padrão ao cruzar com a perna oposta à que habitualmente cruza.

Distribua também o peso de forma equilibrada entre os dois ísqueos (ossos dos glúteos). Se a lombar arredonda, isto é um indicador de fadiga e deve aumentar a altura do suporte em que se senta, com um almofada pequena, uma lista telefónica (das antigas, do tipo páginas amarelas) ou com cobertores, para que a lombar encontre a sua curvatura natural e se eleve.

Estar sentado é um desafio enorme para quem tem escoliose. Evite sentar-se por longos períodos e, se trabalha, em frente a um computador, evite estar estático. Levante-se e mova-se regularmente. Faça alongamentos simples e pausas regulares. Certifique-se que o computador está ao nível do olhar. Considere usar um bolster, uma almofada firme ou uma bola terapêutica para apoiar as costas. As costas devem estar apoiadas e rectas de forma a que os ombros e braços possam ficar relaxados desde a a articulação do ombro. Se não consegue respirar de forma profunda e completa (usando a zona peitoral, intercostal e abdominal) isso é um indicador de que deve corrigir a postura.

Em casos mais severos de escoliose, pode usar blocos num dos lados das costas, entre as omoplatas e a coluna, para que os dois lados das costas estejam apoiados. Se os pés não tocarem o chão, coloque uma agenda telefónica ou uma caixa por baixo dos pés.

Se sentir desconforto ou fadiga, isso é a bandeira vermelha a dizer-lhe que deve parar o que está a fazer, levantar-se e mover-se um pouco. É muito importante tomarmos consciência destes pequenos sinais que o corpo vai dando. Observe como a fadiga afecta a respiração e a postura. Repare nas compensações nas áreas sobrecarregadas para sustentar a postura.

Uma outra esytratégia para tornar a postura sentada mais confortável é usar um peso sobre as coxas, o que libera as pernas e a pélvis. Esta acção enraiza os ossos e os flexores da anca dando mais espaço à coluna para ‘alongar’.

Quando viajar, use bolas pequenas macias (como as que se usam em lojas de fisioterapia) para apoiar e massajar as costas e também almofadas pequenas.

Dois equívocos

18 de Maio, 2020

Há dois equívocos (há mais, mas por ora vou focar nestes dois) que, frequentemente, acabam por afastar algumas pessoas do caminho do Yoga. O primeiro é a pressa de achar que o Yoga vai resolver todas as nossas questões existenciais com base na lei do menor esforço. E já que tanto se fala de disciplina a propósito da prática de yoga, o que realmente disciplinamos é o movimento da nossa consciência; treinamo-nos para ficar em vez de fugir do que quer que seja que estamos a experienciar. Quando escolhemos ficar com a nossa prática apesar dos altos e baixos da vida, estamos activamente a escolher focar a nossa consciência naquilo que é imutável em nós. Em cada prática, começamos a identificarmo-nos com esta parte estável em nós. Quando nos sentimos tristes, praticamos. Quando nos sentimos felizes e excitados, praticamos. Quando estamos mergulhados na escuridão de um luto, praticamos. Quando temos um milhão de coisas para fazer, praticamos. Mas não praticamos para nos livrar seja lá do que for. Não praticamos para fugir ou suprimir sentimentos, nem praticamos desde um negacionismo estóico. Quando praticamos em alturas altas e baixas da nossa vida, em momentos felizes ou infelizes, o que estamos realmente a dizer é: “A tristeza está a mover-se em mim, mas a tristeza não é o que sou; a euforia está a mover-se em mim, mas eu não sou euforia; o luto está a mover-se em mim, mas o luto não me define”. Quando praticamos independentemente das circunstâncias, criamos espaço para experienciar na totalidade os sentimentos que temos mas sem permitir que eles nos paralizem ou que cristalizem na nossa identidade.

O segundo equívoco nasce de uma grande confusão acerca do que seja ser-se livre e como o yoga é um meio para essa liberdade. Alguns pressupostos a este respeito: 1) o conhecimento do ‘eu’ está disponível apenas quando procuramos por ele; 2) A liberdade não é possível sem o ser se reconhecer como livre. Mas, acima de tudo, tem de haver a conversão do desejo de ser livre no desejo de conhecer, pois o desejo de ser livre pode levar-nos para longe do Conhecimento.

O trabalho começa no tapete e prolonga-se para além dele. Do denso ao subtil. Do impossível ao possível. 

O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar.
É um desdizer que nos diz
Em cada hora, momento
É instrumento de ser feliz
Não de doer, nem magoar.

É barca de ser e singrar
Com alento, não de choro.
Dá prazer, e não lamento
Para querer, sem crer estar;
Pra combater o tormento
Sem laxismo nem decoro,
O corpo é instrumento
De dar prazer, não dá penar.

O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar,
Seja rápido ou lento,
O corpo é instrumento
Não de doer, mas de amar.

O corpo quer só bom trato
E atenção, pra conseguir
Uma plena realização.
Não é pedra no sapato
Ou ingrato por condição
De coxeio, mas de sorrir.

Meio de gozo sem perversão
Nem ditado, que premeia,
Ou círculo quadrado,
Mas diz sim, se sim; não, se não
Em todo e qualquer lado
Se apraz, não esperneia
Meio de gozo sem perversão
Nem ditado que permeia,
O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar,
Seja rápido ou lento,
O corpo é instrumento
Não de doer, mas de amar.