Medo e invertidas

24 de Julho, 2020

 

Compreensão e repetição são as soluções definitivas para qualquer medo

 

“Filipa. Sirsasana no meio da sala”. Até hoje recordo o terror com que ouvi esta frase da minha professora de Iyengar yoga, 1 ano depois de andar a tentar subir as pernas para a parede e a fazer a postura apenas com esse suporte.

Já não me lembro se caí ou não dessa primeira vez em que me afastei da parede. Mas lembro-me de duas coisas muito claramente: 1) as reações mentais nos segundos em que caminhei da parede para o meio da sala (e já lá vão 10 anos); 2) de que todo esse processo foi preciso para que hoje eu consiga subir, estar e ensinar essa postura com toda a segurança e compreensão sobre a interacção mente-corpo, mente-ásana.

O medo é um produto da mente que é manifesto e revelado no ásana. Em muitas posturas, mas no sirsasana e em invertidas sobre a cabeça em particular. É uma postura que toca em muitas barreiras em nós. É o início de uma viagem.

Já escrevi algumas vezes sobre o medo na prática de yoga e na forma como podemos lidar com ele. Uma coisa comum em todos os medos é que ele só surge quando a nossa compreensão da relação que nos suscita medo não é completa. Tenho medo de uma postura de yoga quando ainda não compreendo a minha relação com ela, tenho medo do amor quando ainda não o compreendo, tenho medo de uma relação inesperada quando ainda não a compreendo. Essa relação não é só entre nós e a natureza , entre nós e aquilo que possuímos, entre nós e ideias. Se essa relação não é compreendida inteiramente, há medo. Porque viver é relação.

Ser é estar em relação. Na prática, não fazemos posturas, somos posturas. Fundimo-nos com a postura. O medo só existe em relação a algo, não é uma coisa abstracta.

Como é que nos libertamos do medo?

Como em qualquer relação, aquilo que é conquistado tem de voltar a sê-lo várias vezes. Nenhum problema é vencido de uma só vez; ele pode ser compreendido mas não conquistado. Conquistar só leva a mais resistência, mais confusão, agitação e a mais medo. Resistir, dominar, guerrear com uma postura (no tapete) ou com um problema (na vida) só vai criar mais conflito. Se pudermos explorar o medo, entrar nele passo a passo, explorar o seu conteúdo, então esse medo vai passar de vez.

Na vida, acima de tudo, temos medo de não virmos a ser aquilo que projectámos ou sonhámos. Quando há medo de não virmos a ser, do desconhecido (como uma invertida), da morte, será que podemos vencer esse medo pela determinação? Esta fará parte do processo, sem dúvida. Mas é preciso perceber que a repressão, a sublimação ou substituição só vão gerar mais resistência. O medo não se vence pela resistência ou defesa, nem nos libertamos dele através de uma busca por uma resposta ou explicação verbal.

De que é que temos medo? Temos realmente medo da invertida ou das ideias que associamos a essa postura? Temos medo do facto ou da ideia? Temos medo de uma coisa tal como ela é ou daquilo que pensamos que essa coisa é? O facto é uma coisa, a ideia acerca do facto é outra. Temos de perceber se temos medo da palavra, do facto ou da ideia.

Só temos medo quando não existe comunhão com aquilo que receamos. Se tenho medo da solidão, p.ex., é porque não estive nunca em completa comunhão com essa solidão. No momento em que nos abrimos à compreensão do que é a solidão, então, podemos compreender o que ela é.

É a minha opinião, a minha ideia, a minha experiência, o meu conhecimento acerca do facto que gera o medo. Portanto, é a mente que cria o medo, sendo a mente o processo de pensar. Pensamento é energia e verbalização. Ficamos libertos do medo apenas quando há auto-conhecimento, quando nos libertamos desse processo de atribuição de nomes, de projecção de símbolos, de imagens. O autoconhecimento é o início da sabedoria e de uma vida sem medo.

Veja aqui um tutorial escrito sobre como fazer esta postura (depois de já se ter treinado muito na parede):

The word ‘hurt’ opens up a can of worms.
Does ‘hurt’ mean pain, and if so to what degree.
Does ‘hurt’ mean discomfort?
Does ‘hurt’ mean ‘this is bad and I am going to do damage’

What ‘hurt’ means for one person is different for another. And that is a tricky task for the teacher until we understand what ‘hurt’ mens to the student.

I have never understood Yoga to be pleasant and easy. I am OK with experiencing discomfort even pain when practicing, but this comes with a sharp radar for understnading if the pain is good or bad.

We learn this in yoga, to dicern if it is something we should sustain or surrender.This is also what we are learning in life, right?How we respond in the asana helps us to better respond to challenges in life.

So to conclude, if a student says ‘it hurts’ or if you are in an asana and feel pain I ask myself the following questions.

  1. Is this good pain or bad pain. Good pain is usually a stretch, release and while it is intense it brings relief afterwards. Bad pain is usually sharp, acute and or felt in the joints.
  2. If it is good pain obsserve it, notice it, sustain it and then release and again observe, what can you learn from it.
  3. If it’s bad pain ask your teacher or self what can do to shift this, perhaps a small action is required to shift it or perhaps you need to come out and not do the poses.


Only the student can know the answers and that is part of the journey as a practitioner. Learning to listen inwards and respond with skilful action.

Let me finish with ‘Ahimsa’ Non violence, one of the five yamas to observe and practice.

Never stray from the yamas and niyamas and if in doubt about something return to them and they will guide you.

Salamba Sirsasana I

1 de Junho, 2020

Salamba simgnifica suporte. Sirsa significa cabeça. Esta é a postura invertida sobre a cabeça, uma das principais posturas de yoga, considerado até como o rei dos ásanas. É uma postura fundamental e apresenta diversas variações, conhecidas como o ciclo de sirsasana (mais frequentemente praticado no estilo iyengar). Vamos aqui – recriando o esquema apresentado no livro Light on Yoga, de B. K. S. Iyengar, apresentar a sequência para entrar na postura para quem está a iniciar a sua prática. Toda esta sequência pode ser feita com o apoio da parede. Não deve tentar fazer esta postura pela primeira vez sem o acompanhamento presencial de um professor qualificado.

Este esquema visa apenas ajudar à prática pessoal de quem tem uma prática regular com acompanhamento de professor.

1 &2. Pouse os antebraços ou os cotovelos no tapete à distância dos ombros. A distância entre os cotovelos não deve ser maior do que a dos ombros.

2. Entrelace os dedos de forma a que as palmas das mãos formem uma concha. Quando subir para o equilíbrio, os dedos devem manter-se firmemente entrelaçados. Se estiverem moles, o peso do cropo cai sobre eles, fazendo os braços arquearem.

3. Pouse a coroa da cabeça no chão de forma a que a nuca encaixe na concha das palmas das mãos. Não pouse nem a testa nem a nuca no chão. Para isto, aproxime os joelhos da cabeça. Depois de assegurar a posição da cabeça, eleve os joelhos do chão ao caminhar com os pés em direcção à cabeça.

4. Expire e, com a força do abdominal, suba as pernas do chão com os joelhos dobrados. Faça essa elevação de tal forma que os dois pés saiam do chão ao mesmo tempo. Quando isto estiver garantido, avance para as fases seguintes (fotos 5, 6, 7 e 8).

9 & 10. Estique as pernas e equilibre-se sobre a cabeça, mantendo todo o corpo perpendicular ao chão (vista lateral – 9; vista frontal- 10).

Note que este asana não é para relaxar em equilíbrio sobre a cabeça. Esta é uma postura que exige força e resistência para elevação dos ombros e da parte superior das costas de forma a permitir um alongamento da coluna, também na região lombar, por um tempo considerável.

Tente criar a acção de afastar os cotovelos – sem efectivamente o fazer – para que os ombros se abram e para activar o grande dorsal, trazendo mais estabilidade à postura.

Repare que o pescoço deve estar longo, tal como em tadasana. Para isso, pressione o topo da cabeça contra o chão, o que cria uma sensação de leveza e alivia a pressão sobre o pescoço. O peso nunca deve ir para a cabeça, mas sim ser suportado pelos braços. Prefira menos tempo de permanência na postura com mais qualidade.

Atente na verticalidade do corpo (mais uma vez tenha tadasana como referência) e contraia o grande glúteo e adutores (juntando os joelhos) para não colapsar na lombar e active abdmomens e psoas.

Advertência: Praticantes com problemas na coluna cervical não devem fazer este ásana. O mesmo para quem  tem tensão alta (sem estar medicado) e quem tem problemas de coração.

Benefícios:

Melhora a circulação sanguínea no cérebro, tendo um efeito rejuvenescedor. É tonificante para quem sente sempre ‘ a cabeça cansada’. Garante um aporte de sangue adequado às glândulas pituitária e pineal, essenciais para a saúde e vitalidade do corpo.

Pessoas com insónia, perda de memória e vitalidade beneficiam da correcta prática desta postura.

Robustece os pulmões, disciplina a mente.

Sirsasana counteracts tiredness, improves concentration and boosts self confidence. When practiced correctly, headstand oxygenates the brain. It can also help those with memory loss.

Other benefits: helps those with arthritis of the lower back, dorsal region, and shoulder joints. It also reduces lumbago, sciatica, and general backache. Sirsasana works on the legs; any experienced yoga practitioner who has had the misfortune of spraining a knee or an ankle knows how effective this pose is at bringing down a swelling or inflammation in these joints. Varicose veins and coccyx pain and displacement can also be dealt with.

Diseases of the respiratory system, lungs and heart such as palpitations, asthma, breathlessness, bronchitis, nasal catarrh, chills, cold and cough, and (after medical treatment and rest) pleurisy and pneumonia, can all be brought to vibrant good health through regular practice of this pose.

This pose also brings relief for those suffering from digestive problems; constipation, acidity, colic and colitis can all be ameliorated with this and other poses. It can also boost low blood pressure. Other conditions that greatly benefit from Sirsasana are diabetes, displaced uterus, epilepsy, umbilical hernia, inguinal hernia, impotency, anemia, appendicitis, insomnia, kidney problems, menstrual disorders, prostrate problems, tonsillitis and duodenal ulcer.

Fonte: Light On Yoga, B. K. S. Iyengar

Respirar nas relações

27 de Maio, 2020

 

A admiração é o oxigénio do desejo e do amor a dois. O amor maduro incentiva, estimula, promove e partilha a alegria do crescimento do outro e das suas realizações. ⁣⁣
⁣⁣
Saber admirar é uma arte que só desenvolvem aqueles que constróem autoestimas seguras e não precisam de diminuir o outro para se engrandecer nem ignorar os feitos e virtudes alheias para esconder a sua inveja e sensação de pequenez. ⁣⁣
⁣⁣
Quem se sustenta no reconhecimento das próprias capacidades, auto-referenciado, deseja que o outro faça brilhar cada vez mais a sua luz e voe o mais alto que desejar e puder. Quando é assim, o amor torna-se uma dança de estímulos e conquistas, pessoais e a dois, num crescimento contínuo. ⁣⁣

Aceitação

Nas aulas da Gita, temos falado muito deste valor: aceitação.

Aceitar-se a si e ao outro é libertador. Só o que é imperfeito evolui e cresce. ⁣

Longe de ser uma especialista no assunto e baseando-me na observação atenta dos que me rodeia, para que uma relação de casal resulte devemos permitir ao outro alguns ‘pecados’.
O perfeccionismo e a postura infantil de exigência destróem os brotos promissores de amores possíveis. ⁣

A relação nasce da atracção, sustenta-se na admiração e frutifica na alegria da partilha de objectivos e sonhos comuns, na complementaridade das imperfeições e das potencialidades. ⁣

A relação a dois é feita muito mais de ajustes do que de acordos. É no balanço da viagem, sobre as pedras dos desafios, que as arestas se aparam e os que amam se acomodam ao real e ao possível, com maior conforto. ⁣Um relacionamento afectivo aprofunda-se quando o casal mergulha na entrega e na relação. Inicialmente, cada um mergulha na sua própria história, idealizações, carências e virtudes, para se consciencializar e conectar à força que vem da sua própria família, de dentro de si mesmo.Depois, juntos, mergulham na aprendizagem e na arte de oferecer ao outro o melhor de cada momento e de receber o melhor que o outro possa e queira oferecer. Lado a lado, um passo de cada vez, constróem aquilo que seja possível, dentro dos seus sonhos, superando obstáculos, vencendo desafios e aprofundando sempre a descoberta de si mesmos e do outro na intimidade e nas construções transformadoras da partilha e do amor a dois. ⁣⁣

Quem aprende a rir de si mesmo com leveza também aprende a encantar-se com o outro, com compaixão e respeito. Aí o amor floresce. ⁣

(Lembrete: um casamento perfeito é aquele em que duas pessoas imperfeitas se recusam a desistir uma da outra)

Como dormimos? De que lado dorme? Qual o lado em que se sente mais desconfortável? Deita-se sobre a barriga ou de costas? Como é que ficam posicionados os seus membros? Observe o lado para que tende a dormir e vá tentando mudar para o outro. Observe se a sua posição de dormir traz compressão ou descompressão na coluna.

O seu colchão é duro ou macio? O colchão deve ser firme e sem ondulações. Observe a altura e qualidade da almofada. Consulte um terapeuta para encontrar os melhores suportes para dormir.

Pensamentos

Escolher um circuito neural mais saudável dos nossos hábitos mais intrincados, incluindo os pensamentos, é possível através de uma prática consistente. Por exemplo, que tipo de pensamentos tem quando se sente mais cansado ou quando se depara com um obstáculo? A coluna fica mais assimétrica quando isso acontece? Tente sentir quando a coluna colapsa, quando se inclina, ou fica instável. Como é que isso se reflecte ao nível do corpo, das emoções, e da mente? Estes colapsos e inclinações na coluna alteram os canais energéticos internos e criam desequilíbrios. Quando der por si a ter padrões de pensamento mais perturbados, trabalhe o princípio de yoga de cultivar e evocar o pensamento oposto. Por um pensamento negativo substitua por um positivo.

Observar as nossas tendências em direcção a mais saúde começa com a observação que leva a uma maior consciência para que novos e melhores hábitos possam ser criados.

 

A pélvis é o ponto a ter em atenção quando estamos sentados. Observe como se senta. De que lado da pélvis coloca mais peso? Mude para o outro lado. Está sentada sobre o sacro e a arredondar as costas? Para que lado tende o seu tronco a inclinar-se? Incline-se para o outro. Onde está a direcção rotacional de cada lado? Rode para o outro lado. Uma correcta distribuição do peso e a correcção da pélvis depende da natureza da escoliose, da curvatura lombar ou da compensação que se faz em cada postura.

Como é que os pés apoiam  no chão? Os pés devem apoiar afastados à distância da bacia, com a frebte do joelho a apontar para a frente e sobre a articulação do tornozelo. Se for mais confortável, experimente sentar-se sobre um suporte que eleve a pélvis, relaxando mais a virilha. Verifique que o peso está igulamente distribuído entre os dois pés, e de forma equilibrada entre o cutelo externo e o arco do pé. Certifique-se que o pé não supina (a rodar para fora) ou que um pé não vai para a frente do outro. Os pés reflectem a assimetria da coluna. Por exemplo, fixar ambos os pés com uma pressão extra no pé direito vai ajudar a contrabalançar uma escoliose lombar com curvatura para a esquerda. Os rotadores externos da anca estabilizam a pélvis. Não cruze as pernas. Cruzar as pernas é, geralmente, um reflexo da curvatura lombar e da rotação pélvica. Pode também inibir este padrão ao cruzar com a perna oposta à que habitualmente cruza.

Distribua também o peso de forma equilibrada entre os dois ísqueos (ossos dos glúteos). Se a lombar arredonda, isto é um indicador de fadiga e deve aumentar a altura do suporte em que se senta, com um almofada pequena, uma lista telefónica (das antigas, do tipo páginas amarelas) ou com cobertores, para que a lombar encontre a sua curvatura natural e se eleve.

Estar sentado é um desafio enorme para quem tem escoliose. Evite sentar-se por longos períodos e, se trabalha, em frente a um computador, evite estar estático. Levante-se e mova-se regularmente. Faça alongamentos simples e pausas regulares. Certifique-se que o computador está ao nível do olhar. Considere usar um bolster, uma almofada firme ou uma bola terapêutica para apoiar as costas. As costas devem estar apoiadas e rectas de forma a que os ombros e braços possam ficar relaxados desde a a articulação do ombro. Se não consegue respirar de forma profunda e completa (usando a zona peitoral, intercostal e abdominal) isso é um indicador de que deve corrigir a postura.

Em casos mais severos de escoliose, pode usar blocos num dos lados das costas, entre as omoplatas e a coluna, para que os dois lados das costas estejam apoiados. Se os pés não tocarem o chão, coloque uma agenda telefónica ou uma caixa por baixo dos pés.

Se sentir desconforto ou fadiga, isso é a bandeira vermelha a dizer-lhe que deve parar o que está a fazer, levantar-se e mover-se um pouco. É muito importante tomarmos consciência destes pequenos sinais que o corpo vai dando. Observe como a fadiga afecta a respiração e a postura. Repare nas compensações nas áreas sobrecarregadas para sustentar a postura.

Uma outra esytratégia para tornar a postura sentada mais confortável é usar um peso sobre as coxas, o que libera as pernas e a pélvis. Esta acção enraiza os ossos e os flexores da anca dando mais espaço à coluna para ‘alongar’.

Quando viajar, use bolas pequenas macias (como as que se usam em lojas de fisioterapia) para apoiar e massajar as costas e também almofadas pequenas.

Dois equívocos

18 de Maio, 2020

Há dois equívocos (há mais, mas por ora vou focar nestes dois) que, frequentemente, acabam por afastar algumas pessoas do caminho do Yoga. O primeiro é a pressa de achar que o Yoga vai resolver todas as nossas questões existenciais com base na lei do menor esforço. E já que tanto se fala de disciplina a propósito da prática de yoga, o que realmente disciplinamos é o movimento da nossa consciência; treinamo-nos para ficar em vez de fugir do que quer que seja que estamos a experienciar. Quando escolhemos ficar com a nossa prática apesar dos altos e baixos da vida, estamos activamente a escolher focar a nossa consciência naquilo que é imutável em nós. Em cada prática, começamos a identificarmo-nos com esta parte estável em nós. Quando nos sentimos tristes, praticamos. Quando nos sentimos felizes e excitados, praticamos. Quando estamos mergulhados na escuridão de um luto, praticamos. Quando temos um milhão de coisas para fazer, praticamos. Mas não praticamos para nos livrar seja lá do que for. Não praticamos para fugir ou suprimir sentimentos, nem praticamos desde um negacionismo estóico. Quando praticamos em alturas altas e baixas da nossa vida, em momentos felizes ou infelizes, o que estamos realmente a dizer é: “A tristeza está a mover-se em mim, mas a tristeza não é o que sou; a euforia está a mover-se em mim, mas eu não sou euforia; o luto está a mover-se em mim, mas o luto não me define”. Quando praticamos independentemente das circunstâncias, criamos espaço para experienciar na totalidade os sentimentos que temos mas sem permitir que eles nos paralizem ou que cristalizem na nossa identidade.

O segundo equívoco nasce de uma grande confusão acerca do que seja ser-se livre e como o yoga é um meio para essa liberdade. Alguns pressupostos a este respeito: 1) o conhecimento do ‘eu’ está disponível apenas quando procuramos por ele; 2) A liberdade não é possível sem o ser se reconhecer como livre. Mas, acima de tudo, tem de haver a conversão do desejo de ser livre no desejo de conhecer, pois o desejo de ser livre pode levar-nos para longe do Conhecimento.

O trabalho começa no tapete e prolonga-se para além dele. Do denso ao subtil. Do impossível ao possível. 

O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar.
É um desdizer que nos diz
Em cada hora, momento
É instrumento de ser feliz
Não de doer, nem magoar.

É barca de ser e singrar
Com alento, não de choro.
Dá prazer, e não lamento
Para querer, sem crer estar;
Pra combater o tormento
Sem laxismo nem decoro,
O corpo é instrumento
De dar prazer, não dá penar.

O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar,
Seja rápido ou lento,
O corpo é instrumento
Não de doer, mas de amar.

O corpo quer só bom trato
E atenção, pra conseguir
Uma plena realização.
Não é pedra no sapato
Ou ingrato por condição
De coxeio, mas de sorrir.

Meio de gozo sem perversão
Nem ditado, que premeia,
Ou círculo quadrado,
Mas diz sim, se sim; não, se não
Em todo e qualquer lado
Se apraz, não esperneia
Meio de gozo sem perversão
Nem ditado que permeia,
O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar,
Seja rápido ou lento,
O corpo é instrumento
Não de doer, mas de amar.

Seguir a verdade

30 de Abril, 2020

“Antes, seguindo a verdade em caridade, cresçamos em tudo  – Paulo.

 

Porque a verdade participa igualmente da condição relativa, inúmeros pensadores enveredam pelo negativismo absoluto, convertendo o materialismo em zona de extrema perturbação intelectual.

Como interpretar a verdade, se ela parece tão esquiva aos métodos de apreciação comum?

Alardeando superioridade, o cientista oficioso assevera que o real não vai além das formas organizadas, à maneira do fanático que só admite revelação divina no círculo dos dogmas que abraça.

Paulo, no entanto, oferece indicação proveitosa aos que desejam penetrar o domínio do mais alto conhecimento.

É necessário seguir a verdade em caridade, sem o propósito de encarcerá-la na gaiola da definição limitada.

Convertamos em amor os ensinamentos nobres recebidos. Verdade somada com caridade apresenta o progresso espiritual por resultante do esforço. Sem que atendamos a semelhante imperativo, seremos surpreendidos por vigorosos obstáculos no caminho da sublimação.

Necessitamos crescer em tudo o que a experiência nos ofereça de útil e belo para a eternidade, mas não conseguiremos a realização, sem transformarmos, diariamente, a pequena parcela de verdade possuída por nós, em amor aos semelhantes.

A compreensão pede realidade, tanto quanto a realidade pede compreensão.

Sejamos, pois, verdadeiros, mas sejamos bons.”

 

 

As estrofes da Gītā que mencionam os 20 valores são:

amānitvam adambhitvam ahiṃsā kṣāntir ārjavam |
ācāryopāsanaṃ śaucaṃ sthairyam ātmavinigrahaḥ || 13.8 ||

Ausência de vaidade, ausência de pretensão, não-violência,
acomodação, retidão, dedicação ao mestre, pureza, persistência, autocontrole;

indriyārtheṣu vairāgyam anahaṃkāra eva ca |
janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam || 13.9 ||

desapego em relação aos objetos dos sentidos,
ausência de egoísmo e compreensão das limitações
do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor;

asaktir anabhiṣvaṅgaḥ putradāragṛhādiṣu |
nityaṃ ca samacittatvam iṣṭāniṣṭopapattiṣu || 13.10 ||

ausência de apego à ideia de posse, ausência de apego
em relação aos filhos, o cônjuge, o lar e outros,
equanimidade constante independente da realização
do desejado ou do não desejado;

mayi cānanyayogena bhaktir avyabhicāriṇī |
viviktadeśasevitvam aratir janasaṁsadi || 13.11 ||

devoção inquebrantável a mim, [sabendo que] não há
outro [além de Īśvara], apreço por um lugar tranquilo,
ausência da necessidade da companhia de pessoas;

adhyātmajñānanityatvaṃ tattvajñānārthadarśanam |
etaj jñānam iti proktam ajñānaṃ yad atonyathā || 13.12 ||

busca constante do conhecimento de Ātma, apreciação
do sentido do conhecimento da verdade, isso é chamado
jñāna, conhecimento. O contrário a isto é ajñāna, ignorância.

Agora, em lista:

1. Amanitvam, ausência de vaidade, arrogância ou necessidade de elogio.

2. Adambhitvam, ausência de pretensão.

3. Ahiṁsā, não-violência.

4. Kṣānti, pacífica adaptabilidade.

5. Arjavam, retidão.

6. Acāryopāsanam, dedicação ao professor.

7. Śauchan, purificação.

8. Sthairyam, firmeza de propósito.

9. Ātma-vinigraha, comando sobre o pensamento.

10. Indriyartheśu vairāgyam, desapego em relação aos objetos dos sentidos.

11. Anahaṅkāra, ausência de identificação com as coisas do ego.

12. Janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam, reflexão sobre as limitações do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor.

13. Aśakti, ausência de apego à ideia de posse.

14. Anabiśvaṅgaḥ putradaragṛhādiśu, equanimidade afetiva.

15. Nityam samacittatvam iśtaniṣṭopapattiṣu, equanimidade constante.

16. Bhaktir avyabhicāriṇī, devoção inabalável.

17. Viviktadeśa sevitvam, apreço por um lugar tranquilo.

18. Aratiḥ janasamsadi, apreço pela solitude.

19. Tattvajñānārthadarśanam, foco e clareza na verdade.

20. Adhyātmajñāna nityatvaṁ, disposição contínua para o autoconhecimento.