À vontade, no momento presente, espaçosa, clara, enraizada, centrada, calma, resolvida.

Estas são algumas das palavras que descrevem a minha experiência de estar alinhada na minha prática de ásana ontem – uma prática focada na parte inferior do corpo com torções e posturas sentadas.

Articular experiências benéficas no yoga fortalece.

Portanto, convido-te a explorar o teu próprio processo de alinhamento:

– Como deixas de te sentir fora de sincronia para sincronizado(a)? Como passas da dispersão para o foco?

– Como descreveria o movimento em direcção à unidade e à integralidade que resulta de juntares as peças e partes de ti numa maior harmonia?

– Que palavras transmitem a experiência de te sentires alinhado no teu corpo e ser?

Para começar, talvez seja útil partilhar um pouco sobre minha a experiência. Para mim, alinhamento é um processo que se move na pulsação.

Por um lado, há um aspecto desconstrutivo: eu sinto onde estou a segurar e onde estou a soltar e relaxar. Eu solto a tensão e suavizo um pouco da dureza que limita e bloqueia. Levei anos neste processo e tenho muitos mais pela frente.

Há, então, uma componente edificante: eu ajusto-me e respondo com um movimento intencional e propositado em direção à integração. Volto e refaço a postura, sinto, e deixo ir um pouco mais.

Como de costume, o alinhamento resulta de uma combinação de esforço e rendição, fazendo e sendo, acção e reflexão.

E, já que me perguntam isso com frequência suficiente, vou acrescentar que raramente esses dois aspectos de se mover em alinhamento se unem para mim. Em vez disso, eles acontecem em sucessão, primeiro um e depois o outro, para frente e para trás. repetidamente.

A experiência da unidade completa? Acontece por vezes. Mas é sempre espectacular como a consciência canta no nosso corpo.

Os verdadeiros presentes, porém, vêm depois. Quando o trabalho da prática se instala e eu vou para o resto do meu dia é quando o valor do alinhamento parece mais tangível, claro e duradouro.

Yoga e Raiva

16 de Fevereiro, 2021

 

Há tantas razões para perder a calma e para nos dar os 5 minutos. A raiva pode ser uma defesa contra o medo. Factores de stress, como trabalho, problemas familiares, problemas financeiros, alcoolismo e depressão, tornam-se sinalizadores. Sentimentos feridos podem causar reações furiosas. Ou, você pode reagir a algo aparentemente trivial — alguém a caminha muito lentamente à sua frente num passeio, quando está cheio de pressa, por exemplo — e isso liga-se a um problema retido no inconsciente.

A raiva é rajasica, uma energia primordial que alimenta a raiva, mas pode ser temperada e usada para o crescimento. O poder da raiva parece monumental e incontrolável, mas uma crescente consciência das conexões com outras pessoas é a chave para o autocontrolo. Todos estamos a trabalhar nisso. Não há ninguém perfeito.

As pessoas tendem a sentir mais raiva em tempos de mudança? Se sim, por quê? E você está achando que os níveis de raiva são particularmente altos para as pessoas que lidam com a pandemia COVID-19?
As nossas memórias de como as coisas eram parecem, hoje, um sonho, e o mundo actual é irreconhecível. Os nossos planos e esperanças estão espalhados como areia ao vento. O futuro que tínhamos imaginado desapareceu, fazendo-nos sentir assustados, enganados, confusos e irritados enquanto lutamos contra um inimigo invisível e implacável. As pandemias têm lógicas muito próprias.

Aqueles que conseguem aceitar que estamos num tempo diferente, um tempo de guerra, são mais capazes de lidar com as consequências. Outros tentam lutar contra isso, e ficam muito zangados. Os casos de abuso infantil e conjugal são bastante altos hoje em dia, por estarmos trancados juntos e usando essa raiva sobre nós mesmos e uns sobre os outros.

Quais são alguns dos problemas causados por sentir frequentemente raiva?
Pessoas que sentem frequentemente raiva perdem o seu bom julgamento e afrouxam as suas conexões com a vida. São pessoas normalmente num estado furioso, irritável e incapaz de participar de relacionamentos profundos, cegos à evanescência do ser. Amor e beleza desaparecem. A ternura é substituída pelo sadismo.

Existem outras emoções, como ressentimento e ciúme, que devemos considerar como formas de raiva e que devem ser abordadas da mesma forma geral?
Ressentimento e ciúme são duas formas diferentes, mas relacionadas de raiva. O ressentimento pode ser um crescimento da raiva. A pessoa A sente que eu deveria pegar isso, e B levou embora. A sente raiva e amargo.O ciúme é um pouco mais complicado porque é uma interação de três pessoas. Digamos que A ama B, e B ama A, até C aparecer e roubar os afetos de B. Agora B e C estão juntos. A está sozinho, magoado, zangado e ciumento.

O ressentimento pode tornar-se caráterológico e causar amargura crónica. A falta de confiança no outro pelo ciúme impede o pleno desenvolvimento das relações. Em ambos os casos, esses sentimentos tornam as conexões difíceis de alcançar e manter. A consciência e aceitação das emoções é o primeiro passo para lidar com elas. Sente-se com elas calmamente, absorva-as e veja que histórias podem surgir. Essas histórias são suas para aceitar e talvez modificar no futuro. Considere mudar o enredo.

Em geral, como o yoga pode ajudar as pessoas que estão sentindo muita raiva e/ou emoções relacionadas?

Yoga aproxima-nos do nosso corpo, sentimentos e mente. Thich Nhat Hanh disse: “Inspirando, eu sei que estou com raiva. Expirando, eu sei que a raiva está em mim”. O primeiro passo é reconhecer e fazer amizade com os seus sentimentos, e então perguntar-se por que e como está com raiva. Saiba que é humano, e a pessoa com quem você está com raiva também é humana. Raiva é a conexão entre vocês.

Quais são algumas práticas específicas de yoga e/ou posturas que recomenda ou sugere para resfriar essas emoções ardentes?
Começa com a respiração básica. Siga o fôlego. Respeire de forma longa, profunda, lenta. Isso ajudará a controlar a energia feroz da raiva e levará ao autoconhecimento.

Existem muitas práticas físicas que são calmantes: Kapalabhati), uma respiração purificadora, que pdoe ajudar a liberar raiva. Posturas mais desafiantes podem ajudar, também, assim como sequências de yoga restaurativa. Uma das minhas posturas favoritas é Supta Baddha Konasana. Para fazer essa pose, deite-se de costas, palmas viradas para cima perto de seu corpo, e traga os calcanhares de seus pés para tocar. Apoie os joelhos com cobertores ou blocos. Feche os olhos, fique quieto e respire.

Existem práticas de yoga e/ou posturas que as pessoas a sentir raiva e/ou emoções relacionadas devem evitar?
Se achar que um estilo particular de prática alimenta a sua raiva evite-a. Ou estilos de alguns professores. Já me aconteceu. Isso, é claro, é uma questão individual. Lembre-se, deixe seu corpo fazer o seu yoga, não force o seu corpo no que é descrito como a postura de yoga ideal. Isso não existe.

Nem expressar nem suprimir a raiva levam a um resultado positivo. Em vez disso, sente no teu corpo e no teu coração o que és, e para onde o teu espírito te leva.

Vamos falar de ansiedade?

9 de Fevereiro, 2021
Ansiedade é o medo esmagador de que algo terrível vai acontecer ou já está a acontecer. Uma pessoa ansiosa sente que mal consegue parar de se desmoronar. A pressão das questões ambientais, como problemas financeiros, relacionamentos, trabalho ou escola, pode fazer com que as pessoas se sintam terrivelmente ansiosas. Trabalho excessivo e burnout são ouytros problemas actuais.

Ansiedade, mudança e Covid-19
A mudança e o diferente deixam as pessoas ansiosas. Gostamos de saber o que acontece a seguir  e agora não sabemos. COVID -19 é um vírus pernicioso que não podemos ver, ouvir, cheirar ou provar. Todo o ambiente se torna ameaçador, e não há muito que se possa fazer sobre isso. É um mal invisível, como um filme de terror. Mas não temos d ever as coisas assim, não é?

Sintomas específicos da ansiedade

Muitas pessoas experimentam hipervigilância, inquietação, suores, a incapacidade de concentração, pensamentos velozes ou em loop, pensamentos indesejados ou fadiga. Muitas pessoas hoje, no meio dessa pandemia, reclamam de como estão cansadas. Claro, estamos cansados. estamos sob ataque contínuo. Estamos com medo de morrer.

Como é que o yoga pode ajudar
Yoga ensina-lhe a conhecer o seu corpo, a estar dentro dele e a observar como você se sente. Aprende a prestar atenção na sua respiração. Ou, você pode encontrar-se desconectado e amarrado num turbilhão de pensamentos desagradáveis e o yoga ajuda a enraizar-se, a ter uma base segura.  Ou, sente seu corpo em tensão e aprende a relaxar cada parte do corpo e o seu corpo solta-se.

Especificamente, que práticas de yoga podem ajudar

Primeiro encontre o seu lugar. Sinta os seus pés no chão, o seu corpo no espaço. Comece a observar a sua respiração, e lentamente serene-a.  Observe os seus sentidos, um por um. Pergunte a si mesmo o que você vê, o que você ouve, sente, cheira, etc.
Yoga nidra, ou sono do yoga, pode ser calmante. Foi por isso que abrimos aulas especificamente de yoga nidra nesta fase (online).

Além disso, há uma série de técnicas de yoga restaurativas que liberam a energia limite no seu corpo. Se você se encontra assustado de manhã quando acorda, ou com medo quando vai dormir, tente yoga nidra. Escreva-me e posso facultar-lhe algumas práticas.

Há alguma prática de yoga que as pessoas com ansiedade devem evitar?
Muitas vezes as pessoas me perguntam se deveriam começar uma prática de meditação. Meditação é calmante, mas começar uma prática por conta própria, especialmente quando se sente ansioso, é uma má ideia. Pode fazer-se sentir pior. Procure um professor que a oriente relamente e não use um formato para tudo.

 

Recebi mais uma questão sobre a prática….

“Sinto que sou incapaz de levar minha coluna inferior – área lombar e sacro para dentro do corpo em Adho Mukha Svanasana. É impossível fazer isso em posturas de flexão à frente, como Paschimottanasana. Mesmo quando uso altura sob os glúteos. Além disso, sinto que tenho uma inclinação pélvica posterior e talvez isso torne ainda mais difícil. Poderias dar-me algumas dicas para corrigir esse problema?

Este é uma questão comum e que vejo muito, assim como ter uma inclinação pélvica posterior é bastante frequente.

É excelente usar altura sob os glúteo, mas se não sentiu diferença então eu sugeriria usar ainda mais altura e mover os ísqueos  para os lados e para trás.

Outro ponto é que muitas vezes os alunos descem os calcanhares em Adho Mukha Svanasana prematuramente.

Em Adho Mukha Svanasana dobre os joelhos, levante os calcanhares e levante os ísqueos até o tecto para colocar o sacro ‘para dentro’ do corpo. Espero que isso lhe dê algum acesso a uma inclinação pélvica mais anterior.

 

EN

“I feel like I am unable to take my lower spine – lumbar and sacrum area into the body in Adho Mukha Svanasana, it’s impossible to take into the body in forward bends like Paschimottanasana. Even when I use height under my buttocks. Also, I feel I have a posterior pelvic tilt and maybe that makes it even harder. Could you please give me some tips to correct this issue?”

This is a common feeling for students to experience. So too is having a posterior pelvic tilt.

I am glad to hear you attempted height under the buttocks in the sitting postures, if you did not feel a difference then I would suggest more height and taking the time to move the sit bones wide apart, and back.

Often students descend the heels in Adho Mukha Svanasana prematurely.

In Adho Mukha Svanasana bend your knees, lift your heels and raise the sitting bones up to the ceiling to get the sacrum into the body. You can also attempt this with your hands on the chair to get more access to the spine.

I hope this gives you some access to a more anterior pelvic tilt.

 

Meus queridos isquiotibiais

10 de Novembro, 2020

 

Podes sugerir algumas posturas que trabalhem isquiotibiais duros.Nas flexões à frente acabo por dobrar os joelhos e não trabalho as rótulas dos joelhos?

Precisamos trabalhar estes músculos na nossa prática diariamente para ver resultados e, mesmo assim, podemos ir ao tapete e sentir que eles estão tão apertados como sempre.

P.ex, para mim, sei que há uns dias por mês em que os meus músculos e articulações têm uma rigidez adicional, e sim, também sinto os isquiotibiais nesses dias.

Seja atencioso(a) com o que mais pode estar a ocorrer no seu corpo e tome cuidado para não exagerar o alongamento quando o seu corpo precisa é de descansar.

Ainda assim, a prática diária de asanas que alongam os isquiotibiais incluem … mas não se limitam a:

  • Adho Mukha Svanasana
  • Uttanasana/Ardha Uttanasana
  • Parsvotanasna

A questão é: como praticas esses ásanas? Usa um suporte para que possas esticar totalmente os joelhos (sem fazer hiperextensão”. Não tentes fazer essas posturas como o Iyengar faz no livro LOY.

Em vez disso

FAZ Adho mukha svanasana com as mãos numa cadeira.
FAZ Parsvotanasana com as mãos na parede ou numa cadeira
FAZ Uttanasana com as mãos nas canelas e costas concavas ou mãos na parede

Usa os suporte necessários para que possas esticar totalmente os joelhos (sem hiperextensão) e a coluna.

E aqui tens uma prática para trabalhares os músculos isquiotibiais.

Não basta compreender

22 de Outubro, 2020
Quem lamenta, ainda não quer solução.
Sabemos como é desafiador ajudar (ou ajudarmo-nos) quem ainda não está desejoso ou pronto para assumir responsabilidades e decisões transformadoras.
Muitas pessoas  só querem “entender” o seu problema.
Esta postura assemelha-se à do prisioneiro que se torna expert em explicar as barras da cela da prisão e o que o levou até ali, e com a chave na porta não a vira para se libertar. Continua sofrendo, com uma bela explicação. Porque esta chave chama-se decisão e responsabilização por si mesmo.
Para ter solução e libertação é preciso não só compreender, mas estar disposto a pagar o preço que a solução custa.
Muitas vezes este preço é a solidão, a individuação, a renúncia, o sacrifício de algo, o desapego, a aceitação, a perda das expectativas, a compaixão, o reconhecimento de um amor, a despedida dos pais, o “adultecer” e tantos outros movimentos que custam perder a inocência infantil (que se esconde por detrás do vitimismo) e desenvolver a responsabilização pessoal, movendo-se do entendimento para a decisão e desta para a atitude libertadora.
Só os adultos assumem responsabilidades e tomam decisões. As crianças queixam-se e lamentam-se, prisioneiras de si mesmas,das circunstâncias e das decisões dos outros.
Os adultos que decidem tornar-se autores da sua própria história ressignificam a vida, desenvolvem resiliência e constroem novas realidades que trazem paz.

Antes mesmo de irmos ao tapete, os nossos pensamentos são muitas vezes algo como…
“Tenho que praticar”,
“O meu corpo é tão duro que devo praticar o meu yoga” ou
“Se eu não praticar, nunca melhorarei”
Esse tipo de pensamento soa como um pai a tentar obrigar uma criança a fazer os trabalhos de casa ou  a limpar o seu quarto.
Onde está o benefício, a recompensa e a motivação?
Hoje partilho uma maneira simples e eficaz de nos motivarmos para praticar que vai atender às necessidades profundas e ajudar a vermos o momento da nossa pr]atica com outros olhos.
Primeiro tenho uma confissão para fazer. Eu disse algo nesse sentido para mim mesma muitas vezes. “Eu tenho que praticar” seguido por um som de chicote.
Remova o ‘tem que’ da frase e substitua-o por ‘querer’ e já estará alguns centímetros mais perto de ir ao tapete.

Mas ainda não acabei!

Aqui está a minha estratégia de 2 partes para ajudá-lo a identificar por que quer praticar, entender como a prática pode atender a uma necessidade profunda e instantaneamente sentir-se motivado a praticar.
1. Como se sente depois da prática? Liste como se sente depois de praticar. Acho que pode ter algumas das seguintes palavras na sua lista. Relaxado, energizado, equilibrado, fisicamente forte, mentalmente claro, ágil etc.
2. Cada um dos sentimentos está ligado directamente à necessidade que cada um tem. Deixe-me explicar. Se  se sente relaxado depois do yoga é porque tem a necessidade de relaxar. Se se sente forte no seu corpo, isso é porque tem uma necessidade de conectividade muscular no seu corpo.
Quando nos conectamos ao porquê de praticarmos yoga, o que esperamos ganhar com isso (os benefícios) e como nos sentimos depois de praticar é muito mais fácil estender o tapete e praticar em vez de nos chicotear-mos com ‘temos de’ e ‘devemos’
Disciplina não precisa ser uma palavra dura, encontre a sua disciplina através de um profundo desejo de bem-estar.

7 formas de lidar coma raiva

16 de Agosto, 2020

Paschima namaskarasana.

Há muito com que nos sentirmos zangados hoje em dia. E não só por causa da pandemia que estamos a atravessar. Há esta ideia de que as coisas deviam ser de uma determinada forma e é possível que algumas pessoas se sintam frustradas e com raiva por não terem outras soluções ou simplesmente por não terem uma solução de longo prazo infalível.

Como qualquer emoção, a raiva é normal e saudável. Todas as nossas emoções dizem-nos algo e ensinam-nos muito, ajudando-nos a processar as experiências com o mundo.

Mas é importante saber lidar com a raiva, pois não queremos estar à mercê dessa emoção, sobretudo numa altura em que há muitas descargas emocionais e muitos ‘nervos à flor da pele’.

O que antes se fazia para lidar com as nossas emoções: sair com amigos, viajar, etc. já não é, por agora, possível.

Na verdade, como dizia Śrī Śaṅkarācārya, a raiva nada mais é do que uma expressão da dor e da expectativa.

Deixo aqui algumas sugestões:

  1. Ouve as tuas emoções e pensamentos e, depois, vai mais fundo.

Identifica e reconhece os pensamentos e emoções que te estão a inundar a cabeça. Quando alguém diz: “Não aguento mais”, isso faz escalar uma espiral negativa de emoções. Quando dás por ti a pensar de forma catastrófica, muda o tom do pensamento. Pensa algo como : “eu consigo fazer isto hoje” e repete este ‘mantra’ internamente todos os dias se for preciso. Quando dividimos a nossa raiva ou frustração em pequenas partes, torna-se mais fácil de lidar com ela.

Estamos a viver um momento de soluções de curto-prazo. Depois de teres dado um passo atrás para determinar exactamente o que estás a sentir, vai mais fundo e aprofunda por que te estás a sentir dessa forma. Faz uma pausa e reflecte, sobretudo se acabaste de experienciar um pico de raiva.

Pergunta a ti mesmo(a): “O que aconteceu? O que me efureceu naquele momento?”. Se a resposta não for óbvia, escreve sobre isso num diário. Mais tarde vais poder identificar padrões: é possível que sintas mais raiva nas mesmas alturas do dia, ou quando estás com certas pessoas. Tudo isso é informação que podes usar para processar as tuas emoções e arranjar as soluções à tua medida.

O lado bom da raiva é que nos diz que algo não está bem connosco. E, tudo bem que vivas com expectativas, mas deixa que as expectativas incluam obstáculos também. O que pode dar errado vai dar errado. Inclui essa ideia nas tuas expectativas. Esta é uma afirmação muito sensata e não significa que desejes ou façass as coisas para darem errado. É, de facto, uma afirmação bastante positiva.

  1. Mantém a curiosidade sobre pessoas.

Quando achamos que as pessoas deviam agir assim ou assado, criamos expectativas e estas criam mais tensão e frustração. Lembra-te que nunca sabemos as reais intenções das pessoas, sobretudo através de um ecrã.

Presumimos demasiado acerca das outras pessoas e poucas vezes as ouvimos realmente. Agora, ser curioso acerca das pessoas não é querer (e muito menos consumir) o que muita gente despeja nas redes sociais sobre as suas vidas privadas. A vida pessoal e privada devia manter-se fora das redes e manter-se privada, apesar de todas as alterações que o conceito de privacidade tem vindo a sofrer.

Mantém a porta aberta para conversas reais, com pessoas reais e não com posts. Isto pode neutralizar a tua raiva.

  1. Faz exercício físico. Sim, yoga, mas não só.

Muitas vezes o melhor que há a fazer quando estamos zangados é transpirar muito. Fazer algo fisicamente exigente ajuda-nos a fazer um reset. Não tem de ser exercício físico feito de forma extenuante. Pode bastar uma boa técnica de respiração, como a respiração diafragmática.

E orientação especializada e profissional nesta área é indispensável.

4. Se achares que é mesmo preciso, procura ajuda profissional.

  1. Tem a tua playlist de músicas preferidas sempre à mão.

A música equilibrada é uma das melhores terapias para reequilibrar a tua energia e o campo vibratório da tua casa. Se tiveres uma lista de músicas de que gostas e que sabes que te acalmam, podes usar quando surge aquele pico de raiva.

  1. Usa as tuas reservas de energia emocional

A raiva desgasta-nos e deixa-nos KO. Tens de encontrar um equilíbrio entre usar a raiva para uma mudança em ti sem ficares exausto(a). A raiva aumenta a nossa batida cardíaca e tensão arterial. O truque está em encontrar estratégias que te ajudem a acalmar, como, por exemplo, dar um passeio na rua ou na praia. Neste caso, só queremos limitar os efeitos do pico de raiva. Ou podes canalizar a energia que vem da raiva para te tornares um activista por alguma causa.

  1. Encontra um ombro realmente amigo

Por vezes, só precisamos de ventilar. Telefona a um amigo ou a alguém em quem confies e possas simplesmente desabafar. Alguém que te possa ouvir simplesmente. Este tipo de troca pode não só ajudar-te a processar a emoção que estás a sentir, mas também o facto de verbalizares o que sentes e o porquê, ajuda a ganhar perspectiva sobre os teus próprios sentimentos, a encará-los com mais objectividade e, portanto, com menos dor.

 

Isto não é uma simulação

13 de Agosto, 2020

Muitos de nós podem ser perdoados por terem pensado que essa coisa da vida era muito fácil. As últimas décadas foram boas para nós. Economias em expansão. Variadas e impactantes tecnologias.

Estávamos a viver, como um académico disse após a queda do comunismo, o fim da história. Todos aqueles momentos trágicos e sombrios do passado… pertenciam ao passado.

Não há nada como uma pandemia global – estranhamente semelhante às pragas do mundo antigo – para nos rebentar com essa noção. E como não quando ouvimos que Nova York, a jóia da coroa deste mundo moderno e aconchegante em que vivemos como crianças mimadas, teve que montar necrotérios temporários para lidar com as pilhas crescentes de cadáveres. Nada como ouvir que milhões de pessoas estão no desemprego ou em empregos cada vez mais precários para nos acordar para a realidade: esta pandemia não é uma simulação.

Não. Isto é a vida real. É para isso que temos treinado e deveriamos ter treinado. “Nenhum papel é tão adequado à filosofia como aquele em que você está agora”, disse Marco Aurélio… quando o império de Roma parou e a praga assolou sobre a cidade. “A vida é uma guerra e uma jornada longe de casa”, disse ele, enquanto lutava, por anos a fio, contra invasores nas fronteiras do seu império.

Estamos a viver a história, assim como Marcus e todos os estoicos estavam. Isto não é uma simulação. É hora de trabalhar. É hora de incorporar a filosofia e o yoga de que falamos. É hora de reunir essas virtudes críticas de Coragem, Temperança, Justiça e Sabedoria. O nosso modus operandi tem de mudar. Não podemos simplesmente adaptar e fazer tudo como antes, apenas de forma diferente. Temos realmente de mudar a nossa bússula. E Querer mais: não mais do mesmo, mas mais da Liberdade do Ser e não da do Ter.

Isso não será fácil, mas é o que está na nossa frente.

Estás com medo? Tudo bem.  Mas isso é em parte porque estás bem no olho do furacão —estás a olhar para tudo isto demasiado perto, com as contas para pagar, com os filhos a precisar, com os empregos a deixarem de o ser. Se pudermos diminuir o zoom, só um pouco, teremos alguma perspectiva. Somos lembrados de que isto também passará, que sobreviveremos.

Hemingway abre O Sol Também se levanta – ambientado após uma guerra terrível, que foi seguida por uma terrível pandemia, com todos os tipos de tragédias individuais comuns pelo meio – com um dos versos mais bonitos da Bíblia, um que soa como se pudesse ter sido escrito por Marco Aurélio:

“Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra para sempre permanece. Nasce o sol, e o sol se põe, e apressa-se e volta ao seu lugar de onde nasceu…”

Todos os dias desde que esta crise começou, o sol nasceu e pôs-se. A lua saiu e brilhou. A relva cresceu. Bebés nasceram. Pessoas tiveram ideias. Pessoas apaixonaram-se. Isso é tão verdadeiro agora como foi durante a Peste que Marco Aurélio suportou por 15 anos, foi verdade depois, e será verdade sempre.

Temos que encontrar uma maneira de ter algum consolo nisso, para continuarmos em nós mesmos. Vamos superar isto, como sempre passamos por tempos difíceis. Haverá um novo normal. Vamos adaptar e ajustar.

A vida permanecerá para sempre, então não há razão para ficar com raiva ou com medo ou com amarguras. Apenas aguenta aí. Faz o melhor que puderes nos lugares certos com as pessoas certas. Não sejas como foste antes da pandemia, sê melhor.

P. S.:

Não tens de passar por tudo sozinho. A jornada de yoga de um praticante pode ser muito solitária, porvezes; sim temos que nos esforçar no auto-estudo (svadhyaya), mas em nenhum lugar diz que temos que fazer isso isoladamente. E acho que já temos confinamentos que cheguem nas nossas vidas por estes dias.

Um shala é um lugar de saúde física, mental e espiritual. E saber isso, ter isso como missão manteve-me firme nos meses em que tivemos de encerrar. Porque eu teria de prestar contas no momento em que decidisse reabrir. Prestar contas a quem? A quem viesse praticar no shala. Internamente, eu tinha uma responsabilidade para com os praticantes e não ia desapontá-los. A única forma de o fazer era manter-me à tona – praticando. Isso manteve-me responsável, e ainda mais empenhada na prática e nos compromissos que assumi quando o abri. Yoga é estar presente. Inteiramente. Sem adaptações, sem simulações. Yoga é presença integral.

 

(ENGLISH)

Many of us can be forgiven for having thought that this life thing was pretty easy. The last few decades have been pretty good to us. Booming economies. Great technology. Our wars have had limited impact on our populace and our recessions have been short.

We were living, as one academic said after the fall of communism, after the end of history. All those tragic, bleak moments of the past…were past us.

There’s nothing like a global pandemic—one eerily similar to the plagues of the ancient world—to disabuse us of that notion. Nothing brings that home quite like hearing that New York City, the crown jewel of this cushy, modern world, had to set up temporary morgues to handle the growing piles of bodies. Nothing like hearing that millions of people are out of work to make it clear that this is not a drill.

No. This is real life. This is what we have been—and should have been—training for. “No role is so well-suited to philosophy as the one you happen to be in right now,” Marcus Aurelius said…as Rome’s empire ground to a halt and the plague descended upon the city. “Life is warfare and a journey far from home,” he said, as he battled invaders at the frontier for years on end.

We are living through history, just as Marcus was and all the Stoics were. This is not a drill. It’s time to put on our big girl pants and get serious. Get to work. It’s time to embody the philosophy we have talked about. It’s time to muster those critical virtues of Courage, Temperance, Justice, and Wisdom.

This won’t be easy, but it’s what’s in front of us.

NOTE:

You don’t have to go through it all by yourself. A practitioner’s yoga journey can be very lonely at times; yes we have to strive in self-study (svadhyaya), but nowhere says we have to do this in isolation. And I think we’ve got enough lockdowns in our lives these days.

A shala is a place of physical, mental and spiritual health. And knowing that, having that as a mission kept me going in the months we had to shut down. Because I’d have to be held accountable the moment I decided to reopen. Accountable to whom? To those who came to practice in the shala. Internally, I had a responsibility to the practitioners and was not going to disappoint them. The only way to do that was to stay afloat by practicing. This kept me responsible, and even more committed to the practice and commitments I made when I opened it. Yoga is being there. Entirely. No adaptations, no simulations. Yoga is integral presence.