Salamba Sirsasana I

1 de Junho, 2020

Salamba simgnifica suporte. Sirsa significa cabeça. Esta é a postura invertida sobre a cabeça, uma das principais posturas de yoga, considerado até como o rei dos ásanas. É uma postura fundamental e apresenta diversas variações, conhecidas como o ciclo de sirsasana (mais frequentemente praticado no estilo iyengar). Vamos aqui – recriando o esquema apresentado no livro Light on Yoga, de B. K. S. Iyengar, apresentar a sequência para entrar na postura para quem está a iniciar a sua prática. Toda esta sequência pode ser feita com o apoio da parede. Não deve tentar fazer esta postura pela primeira vez sem o acompanhamento presencial de um professor qualificado.

Este esquema visa apenas ajudar à prática pessoal de quem tem uma prática regular com acompanhamento de professor.

1 &2. Pouse os antebraços ou os cotovelos no tapete à distância dos ombros. A distância entre os cotovelos não deve ser maior do que a dos ombros.

2. Entrelace os dedos de forma a que as palmas das mãos formem uma concha. Quando subir para o equilíbrio, os dedos devem manter-se firmemente entrelaçados. Se estiverem moles, o peso do cropo cai sobre eles, fazendo os braços arquearem.

3. Pouse a coroa da cabeça no chão de forma a que a nuca encaixe na concha das palmas das mãos. Não pouse nem a testa nem a nuca no chão. Para isto, aproxime os joelhos da cabeça. Depois de assegurar a posição da cabeça, eleve os joelhos do chão ao caminhar com os pés em direcção à cabeça.

4. Expire e, com a força do abdominal, suba as pernas do chão com os joelhos dobrados. Faça essa elevação de tal forma que os dois pés saiam do chão ao mesmo tempo. Quando isto estiver garantido, avance para as fases seguintes (fotos 5, 6, 7 e 8).

9 & 10. Estique as pernas e equilibre-se sobre a cabeça, mantendo todo o corpo perpendicular ao chão (vista lateral – 9; vista frontal- 10).

Note que este asana não é para relaxar em equilíbrio sobre a cabeça. Esta é uma postura que exige força e resistência para elevação dos ombros e da parte superior das costas de forma a permitir um alongamento da coluna, também na região lombar, por um tempo considerável.

Tente criar a acção de afastar os cotovelos – sem efectivamente o fazer – para que os ombros se abram e para activar o grande dorsal, trazendo mais estabilidade à postura.

Repare que o pescoço deve estar longo, tal como em tadasana. Para isso, pressione o topo da cabeça contra o chão, o que cria uma sensação de leveza e alivia a pressão sobre o pescoço. O peso nunca deve ir para a cabeça, mas sim ser suportado pelos braços. Prefira menos tempo de permanência na postura com mais qualidade.

Atente na verticalidade do corpo (mais uma vez tenha tadasana como referência) e contraia o grande glúteo e adutores (juntando os joelhos) para não colapsar na lombar e active abdmomens e psoas.

Advertência: Praticantes com problemas na coluna cervical não devem fazer este ásana. O mesmo para quem  tem tensão alta (sem estar medicado) e quem tem problemas de coração.

Benefícios:

Melhora a circulação sanguínea no cérebro, tendo um efeito rejuvenescedor. É tonificante para quem sente sempre ‘ a cabeça cansada’. Garante um aporte de sangue adequado às glândulas pituitária e pineal, essenciais para a saúde e vitalidade do corpo.

Pessoas com insónia, perda de memória e vitalidade beneficiam da correcta prática desta postura.

Robustece os pulmões, disciplina a mente.

Sirsasana counteracts tiredness, improves concentration and boosts self confidence. When practiced correctly, headstand oxygenates the brain. It can also help those with memory loss.

Other benefits: helps those with arthritis of the lower back, dorsal region, and shoulder joints. It also reduces lumbago, sciatica, and general backache. Sirsasana works on the legs; any experienced yoga practitioner who has had the misfortune of spraining a knee or an ankle knows how effective this pose is at bringing down a swelling or inflammation in these joints. Varicose veins and coccyx pain and displacement can also be dealt with.

Diseases of the respiratory system, lungs and heart such as palpitations, asthma, breathlessness, bronchitis, nasal catarrh, chills, cold and cough, and (after medical treatment and rest) pleurisy and pneumonia, can all be brought to vibrant good health through regular practice of this pose.

This pose also brings relief for those suffering from digestive problems; constipation, acidity, colic and colitis can all be ameliorated with this and other poses. It can also boost low blood pressure. Other conditions that greatly benefit from Sirsasana are diabetes, displaced uterus, epilepsy, umbilical hernia, inguinal hernia, impotency, anemia, appendicitis, insomnia, kidney problems, menstrual disorders, prostrate problems, tonsillitis and duodenal ulcer.

Fonte: Light On Yoga, B. K. S. Iyengar

Respirar nas relações

27 de Maio, 2020

 

A admiração é o oxigénio do desejo e do amor a dois. O amor maduro incentiva, estimula, promove e partilha a alegria do crescimento do outro e das suas realizações. ⁣⁣
⁣⁣
Saber admirar é uma arte que só desenvolvem aqueles que constróem autoestimas seguras e não precisam de diminuir o outro para se engrandecer nem ignorar os feitos e virtudes alheias para esconder a sua inveja e sensação de pequenez. ⁣⁣
⁣⁣
Quem se sustenta no reconhecimento das próprias capacidades, auto-referenciado, deseja que o outro faça brilhar cada vez mais a sua luz e voe o mais alto que desejar e puder. Quando é assim, o amor torna-se uma dança de estímulos e conquistas, pessoais e a dois, num crescimento contínuo. ⁣⁣

Aceitação

Nas aulas da Gita, temos falado muito deste valor: aceitação.

Aceitar-se a si e ao outro é libertador. Só o que é imperfeito evolui e cresce. ⁣

Longe de ser uma especialista no assunto e baseando-me na observação atenta dos que me rodeia, para que uma relação de casal resulte devemos permitir ao outro alguns ‘pecados’.
O perfeccionismo e a postura infantil de exigência destróem os brotos promissores de amores possíveis. ⁣

A relação nasce da atracção, sustenta-se na admiração e frutifica na alegria da partilha de objectivos e sonhos comuns, na complementaridade das imperfeições e das potencialidades. ⁣

A relação a dois é feita muito mais de ajustes do que de acordos. É no balanço da viagem, sobre as pedras dos desafios, que as arestas se aparam e os que amam se acomodam ao real e ao possível, com maior conforto. ⁣Um relacionamento afectivo aprofunda-se quando o casal mergulha na entrega e na relação. Inicialmente, cada um mergulha na sua própria história, idealizações, carências e virtudes, para se consciencializar e conectar à força que vem da sua própria família, de dentro de si mesmo.Depois, juntos, mergulham na aprendizagem e na arte de oferecer ao outro o melhor de cada momento e de receber o melhor que o outro possa e queira oferecer. Lado a lado, um passo de cada vez, constróem aquilo que seja possível, dentro dos seus sonhos, superando obstáculos, vencendo desafios e aprofundando sempre a descoberta de si mesmos e do outro na intimidade e nas construções transformadoras da partilha e do amor a dois. ⁣⁣

Quem aprende a rir de si mesmo com leveza também aprende a encantar-se com o outro, com compaixão e respeito. Aí o amor floresce. ⁣

(Lembrete: um casamento perfeito é aquele em que duas pessoas imperfeitas se recusam a desistir uma da outra)

Como dormimos? De que lado dorme? Qual o lado em que se sente mais desconfortável? Deita-se sobre a barriga ou de costas? Como é que ficam posicionados os seus membros? Observe o lado para que tende a dormir e vá tentando mudar para o outro. Observe se a sua posição de dormir traz compressão ou descompressão na coluna.

O seu colchão é duro ou macio? O colchão deve ser firme e sem ondulações. Observe a altura e qualidade da almofada. Consulte um terapeuta para encontrar os melhores suportes para dormir.

Pensamentos

Escolher um circuito neural mais saudável dos nossos hábitos mais intrincados, incluindo os pensamentos, é possível através de uma prática consistente. Por exemplo, que tipo de pensamentos tem quando se sente mais cansado ou quando se depara com um obstáculo? A coluna fica mais assimétrica quando isso acontece? Tente sentir quando a coluna colapsa, quando se inclina, ou fica instável. Como é que isso se reflecte ao nível do corpo, das emoções, e da mente? Estes colapsos e inclinações na coluna alteram os canais energéticos internos e criam desequilíbrios. Quando der por si a ter padrões de pensamento mais perturbados, trabalhe o princípio de yoga de cultivar e evocar o pensamento oposto. Por um pensamento negativo substitua por um positivo.

Observar as nossas tendências em direcção a mais saúde começa com a observação que leva a uma maior consciência para que novos e melhores hábitos possam ser criados.

 

A pélvis é o ponto a ter em atenção quando estamos sentados. Observe como se senta. De que lado da pélvis coloca mais peso? Mude para o outro lado. Está sentada sobre o sacro e a arredondar as costas? Para que lado tende o seu tronco a inclinar-se? Incline-se para o outro. Onde está a direcção rotacional de cada lado? Rode para o outro lado. Uma correcta distribuição do peso e a correcção da pélvis depende da natureza da escoliose, da curvatura lombar ou da compensação que se faz em cada postura.

Como é que os pés apoiam  no chão? Os pés devem apoiar afastados à distância da bacia, com a frebte do joelho a apontar para a frente e sobre a articulação do tornozelo. Se for mais confortável, experimente sentar-se sobre um suporte que eleve a pélvis, relaxando mais a virilha. Verifique que o peso está igulamente distribuído entre os dois pés, e de forma equilibrada entre o cutelo externo e o arco do pé. Certifique-se que o pé não supina (a rodar para fora) ou que um pé não vai para a frente do outro. Os pés reflectem a assimetria da coluna. Por exemplo, fixar ambos os pés com uma pressão extra no pé direito vai ajudar a contrabalançar uma escoliose lombar com curvatura para a esquerda. Os rotadores externos da anca estabilizam a pélvis. Não cruze as pernas. Cruzar as pernas é, geralmente, um reflexo da curvatura lombar e da rotação pélvica. Pode também inibir este padrão ao cruzar com a perna oposta à que habitualmente cruza.

Distribua também o peso de forma equilibrada entre os dois ísqueos (ossos dos glúteos). Se a lombar arredonda, isto é um indicador de fadiga e deve aumentar a altura do suporte em que se senta, com um almofada pequena, uma lista telefónica (das antigas, do tipo páginas amarelas) ou com cobertores, para que a lombar encontre a sua curvatura natural e se eleve.

Estar sentado é um desafio enorme para quem tem escoliose. Evite sentar-se por longos períodos e, se trabalha, em frente a um computador, evite estar estático. Levante-se e mova-se regularmente. Faça alongamentos simples e pausas regulares. Certifique-se que o computador está ao nível do olhar. Considere usar um bolster, uma almofada firme ou uma bola terapêutica para apoiar as costas. As costas devem estar apoiadas e rectas de forma a que os ombros e braços possam ficar relaxados desde a a articulação do ombro. Se não consegue respirar de forma profunda e completa (usando a zona peitoral, intercostal e abdominal) isso é um indicador de que deve corrigir a postura.

Em casos mais severos de escoliose, pode usar blocos num dos lados das costas, entre as omoplatas e a coluna, para que os dois lados das costas estejam apoiados. Se os pés não tocarem o chão, coloque uma agenda telefónica ou uma caixa por baixo dos pés.

Se sentir desconforto ou fadiga, isso é a bandeira vermelha a dizer-lhe que deve parar o que está a fazer, levantar-se e mover-se um pouco. É muito importante tomarmos consciência destes pequenos sinais que o corpo vai dando. Observe como a fadiga afecta a respiração e a postura. Repare nas compensações nas áreas sobrecarregadas para sustentar a postura.

Uma outra esytratégia para tornar a postura sentada mais confortável é usar um peso sobre as coxas, o que libera as pernas e a pélvis. Esta acção enraiza os ossos e os flexores da anca dando mais espaço à coluna para ‘alongar’.

Quando viajar, use bolas pequenas macias (como as que se usam em lojas de fisioterapia) para apoiar e massajar as costas e também almofadas pequenas.

Dois equívocos

18 de Maio, 2020

Há dois equívocos (há mais, mas por ora vou focar nestes dois) que, frequentemente, acabam por afastar algumas pessoas do caminho do Yoga. O primeiro é a pressa de achar que o Yoga vai resolver todas as nossas questões existenciais com base na lei do menor esforço. E já que tanto se fala de disciplina a propósito da prática de yoga, o que realmente disciplinamos é o movimento da nossa consciência; treinamo-nos para ficar em vez de fugir do que quer que seja que estamos a experienciar. Quando escolhemos ficar com a nossa prática apesar dos altos e baixos da vida, estamos activamente a escolher focar a nossa consciência naquilo que é imutável em nós. Em cada prática, começamos a identificarmo-nos com esta parte estável em nós. Quando nos sentimos tristes, praticamos. Quando nos sentimos felizes e excitados, praticamos. Quando estamos mergulhados na escuridão de um luto, praticamos. Quando temos um milhão de coisas para fazer, praticamos. Mas não praticamos para nos livrar seja lá do que for. Não praticamos para fugir ou suprimir sentimentos, nem praticamos desde um negacionismo estóico. Quando praticamos em alturas altas e baixas da nossa vida, em momentos felizes ou infelizes, o que estamos realmente a dizer é: “A tristeza está a mover-se em mim, mas a tristeza não é o que sou; a euforia está a mover-se em mim, mas eu não sou euforia; o luto está a mover-se em mim, mas o luto não me define”. Quando praticamos independentemente das circunstâncias, criamos espaço para experienciar na totalidade os sentimentos que temos mas sem permitir que eles nos paralizem ou que cristalizem na nossa identidade.

O segundo equívoco nasce de uma grande confusão acerca do que seja ser-se livre e como o yoga é um meio para essa liberdade. Alguns pressupostos a este respeito: 1) o conhecimento do ‘eu’ está disponível apenas quando procuramos por ele; 2) A liberdade não é possível sem o ser se reconhecer como livre. Mas, acima de tudo, tem de haver a conversão do desejo de ser livre no desejo de conhecer, pois o desejo de ser livre pode levar-nos para longe do Conhecimento.

O trabalho começa no tapete e prolonga-se para além dele. Do denso ao subtil. Do impossível ao possível. 

O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar.
É um desdizer que nos diz
Em cada hora, momento
É instrumento de ser feliz
Não de doer, nem magoar.

É barca de ser e singrar
Com alento, não de choro.
Dá prazer, e não lamento
Para querer, sem crer estar;
Pra combater o tormento
Sem laxismo nem decoro,
O corpo é instrumento
De dar prazer, não dá penar.

O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar,
Seja rápido ou lento,
O corpo é instrumento
Não de doer, mas de amar.

O corpo quer só bom trato
E atenção, pra conseguir
Uma plena realização.
Não é pedra no sapato
Ou ingrato por condição
De coxeio, mas de sorrir.

Meio de gozo sem perversão
Nem ditado, que premeia,
Ou círculo quadrado,
Mas diz sim, se sim; não, se não
Em todo e qualquer lado
Se apraz, não esperneia
Meio de gozo sem perversão
Nem ditado que permeia,
O corpo é instrumento
De ser feliz, não de pesar,
Seja rápido ou lento,
O corpo é instrumento
Não de doer, mas de amar.

Seguir a verdade

30 de Abril, 2020

“Antes, seguindo a verdade em caridade, cresçamos em tudo  – Paulo.

 

Porque a verdade participa igualmente da condição relativa, inúmeros pensadores enveredam pelo negativismo absoluto, convertendo o materialismo em zona de extrema perturbação intelectual.

Como interpretar a verdade, se ela parece tão esquiva aos métodos de apreciação comum?

Alardeando superioridade, o cientista oficioso assevera que o real não vai além das formas organizadas, à maneira do fanático que só admite revelação divina no círculo dos dogmas que abraça.

Paulo, no entanto, oferece indicação proveitosa aos que desejam penetrar o domínio do mais alto conhecimento.

É necessário seguir a verdade em caridade, sem o propósito de encarcerá-la na gaiola da definição limitada.

Convertamos em amor os ensinamentos nobres recebidos. Verdade somada com caridade apresenta o progresso espiritual por resultante do esforço. Sem que atendamos a semelhante imperativo, seremos surpreendidos por vigorosos obstáculos no caminho da sublimação.

Necessitamos crescer em tudo o que a experiência nos ofereça de útil e belo para a eternidade, mas não conseguiremos a realização, sem transformarmos, diariamente, a pequena parcela de verdade possuída por nós, em amor aos semelhantes.

A compreensão pede realidade, tanto quanto a realidade pede compreensão.

Sejamos, pois, verdadeiros, mas sejamos bons.”

 

 

As estrofes da Gītā que mencionam os 20 valores são:

amānitvam adambhitvam ahiṃsā kṣāntir ārjavam |
ācāryopāsanaṃ śaucaṃ sthairyam ātmavinigrahaḥ || 13.8 ||

Ausência de vaidade, ausência de pretensão, não-violência,
acomodação, retidão, dedicação ao mestre, pureza, persistência, autocontrole;

indriyārtheṣu vairāgyam anahaṃkāra eva ca |
janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam || 13.9 ||

desapego em relação aos objetos dos sentidos,
ausência de egoísmo e compreensão das limitações
do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor;

asaktir anabhiṣvaṅgaḥ putradāragṛhādiṣu |
nityaṃ ca samacittatvam iṣṭāniṣṭopapattiṣu || 13.10 ||

ausência de apego à ideia de posse, ausência de apego
em relação aos filhos, o cônjuge, o lar e outros,
equanimidade constante independente da realização
do desejado ou do não desejado;

mayi cānanyayogena bhaktir avyabhicāriṇī |
viviktadeśasevitvam aratir janasaṁsadi || 13.11 ||

devoção inquebrantável a mim, [sabendo que] não há
outro [além de Īśvara], apreço por um lugar tranquilo,
ausência da necessidade da companhia de pessoas;

adhyātmajñānanityatvaṃ tattvajñānārthadarśanam |
etaj jñānam iti proktam ajñānaṃ yad atonyathā || 13.12 ||

busca constante do conhecimento de Ātma, apreciação
do sentido do conhecimento da verdade, isso é chamado
jñāna, conhecimento. O contrário a isto é ajñāna, ignorância.

Agora, em lista:

1. Amanitvam, ausência de vaidade, arrogância ou necessidade de elogio.

2. Adambhitvam, ausência de pretensão.

3. Ahiṁsā, não-violência.

4. Kṣānti, pacífica adaptabilidade.

5. Arjavam, retidão.

6. Acāryopāsanam, dedicação ao professor.

7. Śauchan, purificação.

8. Sthairyam, firmeza de propósito.

9. Ātma-vinigraha, comando sobre o pensamento.

10. Indriyartheśu vairāgyam, desapego em relação aos objetos dos sentidos.

11. Anahaṅkāra, ausência de identificação com as coisas do ego.

12. Janmamṛtyujaravyādhiduḥkhadośānudarśanam, reflexão sobre as limitações do nascimento, a morte, a velhice, a doença e a dor.

13. Aśakti, ausência de apego à ideia de posse.

14. Anabiśvaṅgaḥ putradaragṛhādiśu, equanimidade afetiva.

15. Nityam samacittatvam iśtaniṣṭopapattiṣu, equanimidade constante.

16. Bhaktir avyabhicāriṇī, devoção inabalável.

17. Viviktadeśa sevitvam, apreço por um lugar tranquilo.

18. Aratiḥ janasamsadi, apreço pela solitude.

19. Tattvajñānārthadarśanam, foco e clareza na verdade.

20. Adhyātmajñāna nityatvaṁ, disposição contínua para o autoconhecimento.

Niyamas

21 de Abril, 2020

Yamas e niyamas orientam o indivíduo para uma maior clareza na relação com tudo o que é externo e para uma maior profundidade em tudo o que é interno. Esforços nesta direcção são companhias constantes a todos os outros aspectos da prática e estudo do Yoga, sendo o processo sempre gradual.

Śaucan é a purificação. Mas é mais do que higiene do indivíduo e dos espaços onde circula. É uma atenção ao que será mantido e o que é eternamente limpo. É a percepção de que o que está sujeito a decair é o corpo, o externo; o que não decai é o que somos. A limpeza externa inclui os cuidados com o corpo, a alimentação, os hábitos desaconselhados como o uso de drogas, ou de alimentos tóxicos que gerem comportamentos condicionados e contraproducentes com o que se pratica no Yoga. A limpeza interna inclui uma selecção cuidado dos estímulos que damos à nossa mente, à dieta de pensamentos que alimentamos.

Santosha (contentamento) é a capacidade de estarmos confortáveis com o que temos e com o que não temos. A felicidade que vem com a aquisição de objectos ou experiências é invariavelmente temporária. Esta capacidade de cultivar um estado interior de permanente alegria, independentemente das circunstâncias externas é a chave para a felicidade total. É capacidade de saber viver a sua própria vida, fazendo o melhor que pode com o que tem.

Tapas é a remoção de impurezas físicas ou mentais através de hábitos correctos de sono, actividade, nutrição, trabalho e relaxamento. É conseguir apurar um ponto de eficiência e rigor no nosso quotidiano que nos permita superar os obstáculos quando é preciso exercitando a determinação, força de vontade concentrada, austeridade e um esforço sobre si próprio.

Como diz Kṛṣṇa na Bhagavadgītā: “Uma linguagem que não fira, verídica, amigável e benéfica, o estudo regular das escrituras, tal é o tapas da palavra. A serenidade e clareza de espírito, a doçura, o silêncio, o autodomínio, a total purificação do caráter, tal é o tapas consciente.

Svadhyaya é a capacidade de estudo motivada pela necessidade de rever e avaliar o nosso progresso. Quando desenvolvido ao seu nível mais elevado- um processo que se prolonga por toda vida até aos seus últimos momentos de vida – o estudo apropriado aproxima o indivíduo de uma compreensão do que é mais complexo.

Diz a Viṣṇu Purāṇa, VI:6.2:
“Do estudo deve-se passar ao Yoga.
Do Yoga deve-se passar ao estudo.
Pela perfeição no estudo e no Yoga,
a Consciência Suprema se manifesta.
O estudo é um dos olhos com que vemos o Ser.
O Yoga é o outro”.

Isvarapranidhana é uma reverência a uma inteligência superior ou a aceitação das nossas limitações perante essa inteligência e ordem superior. É nessa reverência que ganhamos confiança para direccionar as nossas mentes para essa inteligência superior em todas as nossas acções e pensamentos. A melhor definição de Īśvara pranidhāṇa está na Bhagavadgītābhavitam bhavati eva: “O que tiver que ser, será”.

 

O sábio Patañjali, autor do Yogasūtra, é sempre representado
como tendo forma de serpente na parte inferior do corpo

O que são?

O rāja yoga, sistematizado pelo sábio Patañjali nos conhecidos YogaSútras, sistematiza e enumera o sistema ético sobre o qual a prática do yoga assenta e sem a qual a prática não produzirá o efeito pretendido. Também é traçado um caminho de conhecimento discriminativo e de meditação. O praticante aprende a lidar consigo mesmo, os seus medos, obstáculos internos, as latências inconscientes que alimentam sem cessar o fluxo do pensamento e que ditam muito do que somos e fazemos. Nesse processo de exploração do universo interno tornamo-nos cientes do que somos.

Os Yogasūtras são o texto clássico mais valorizado pela comunidade de ashtanga yoga, mas, como modelo de yoga, são suficientemente abrangentes para integrarem o haṭha yoga. O ashtanga yoga é hatha yoga.

 

O yoga ensinado por Patañjali é conhecido por vários nomes como Aṣṭāṅga yoga de Patañjali, Patañjala rāja yoga ou simplesmente como o clássico rāja yoga. Vejamos o que entende Patañjali por yoga. A definição de yoga encontra-se no segundo sūtra do primeiro capítulo – Samādhi Pāda.

Qualidades que somos e que desenvolvemos

Nos seus 196 aforismos, Patanjali delineia o processo de nos tornarmos inteiros, explica como devemos cultivar 10 qualidades (yamas e niyamas) para reconhecermos a nossa natureza como seres completos e felizes.
Quando estamos centrados na nossa natureza, estas qualidades brilham por si mesmas. Estes 10 atributos, os yamas e niyamas, são tradicionalmente considerados os preceitos éticos que estão na base de todos os ensinamentos do Yoga. A prática destes preceitos é mais importante do que qualquer outra prática dos 8 membros do ashtanga yoga. Isto porque sendo Patanjali tão lógico e sistematizado na exposição do seu texto, a proeminência dada a esses dois aspectos não será por acaso. Os yamas e niyamas são, na verdade declarações enfáticas do que somos e de como nos relacionamos com a nossa natureza, pois o que nos restringimos de fazer – nessas 10 recomendações – é, no fundo, de nos vermos como separados uns dos outros. Quando há um sentido de unidade entre todos, por que haveremos roubar algo de alguém? Assim como quando estamos intimamente ligados a alguém, não vamos ter qualquer acto de violência para com ele.

Usamos o Yoga não para nos corrigirmos ou punirmos, mas para vermos quem realmente somos. Para o Yoga é a desconexão com o ‘outro’ que está na base de todos os equívocos.

Como é que a nossa verdadeira natureza é de amor e de compaixão, quando no dia a dia nos vemos com pensamentos tão confusos, tão limitados, tão carentes, e nos vemos sitiados entre negatividade e emoções destrutivas?

Patanjali diz-nos que falhamos em reconhecer a nossa bondade intrínseca devido a uma incapacidade momentânea de compreender a vida silenciosa e omnipresente que se manifesta através de nós. E por que é que não falhamos nesse reconhecimento? Porque na maior parte do tempo o nosso modus operandi primário consiste em nos identificarmos e participarmos no movimento transitório de pensamentos, sentimentos, memórias, fantasias, sensações, ideias, julgamentos sobre nós e os outros. Esta panóplia de sensações, de experiências, de desejos e de aversões é tão convincente que passamos grande parte da nossa vida a acreditar que isso é o que somos e o que nos define. Tragicamente, vamos vivendo a acreditar que somos os nossos medos, as nossas raivas, e desapontamentos. Vamos vivendo convencidos de que somos o nosso corpo, as nossas rugas, os nossos sucessos e fracassos.

Esse é um dos motivos por que a prática de ásanas é tão importante: porque vamos percebendo em primeira mão que as nossas sensações, as nossas emoções, as nossas vitórias e limitações são apenas visitantes temporários. E quando conseguimos alguma quietdue na mente e permanecer nesse lugar de quietude, percebemos que o anfitrião de todos esses convidados é a nossa consciência que está sempre presente, imperecível.

Ou, como Patanjali, define no verso:

yogaścittavṛttinirodhaḥ || 2|| Yoga é a cessação das modificações da mente

O yoga é, então, definido através de 3 termos simples: chitta-mente; vrtti- actividade mental ou pensamento e nirodha- absorção ou cessação.

Os Yoga sutras são divididos em 4 capítulos, diz-se devido ao facto de que cada um deles representa o ensino dado a 4 discípulos diferentes.

O primeiro capítulo apresenta todo o terreno do Yoga- as suas características, obstáculos, e como lidar com os problemas que vão surgindo e o que acontece à mentee m consequência disso. Esse capítulo chama-se Samadhipada, por falar de Samadhi que significa complete absorção e união do indivíudo com o objecto de contemplação. Esse objecto pode ser qualquer coisa- ciência, arte, cosmos ou Deus.

Neste primeiro capítulo, Patanjali diz-nos que alguns dos presentes do yoga são uma clareza e discernimento, satisfação e plenitude, serenidade e pureza na acção. Para isso, ele começa por definir alguns dos grandes conceitos que sempre ocuparam filósofos e pensadores de todos os tempos: mente, consciência, fé, Deus.

Soluções para resolver problemas e cultivar a atenção:

  • Adoptar uma attitude positive perante os outros;
  • Técnicas de respiração correctas;
  • Análise regular e exaustiva do papel dos órgãos dos sentidos;
  • Questionamento sobre quem sou eu

Vimos ainda algumas práticas simples para começar e que nos podem ajudar a construir a nossa casa de Yoga:

  1. Fazer escolhas que levem à tranquilidade estável
  2. Estabecer uma convicção fore e inabalável
  3. Estar atento ao colorido dos pensamentos
  4. Treinar a mente para ser focada
  5. Discernimento a todo os níveis e desapego
  6. Prática, prática, prática